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Cachoeira do Sul
23 de janeiro de 2020
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A CRÔNICA DA FOME

A CRÔNICA DA FOME

Mons. Elcy

Ele sentou-se ao meu lado, num banco situado na frente da igreja. Quando veio chegando eu tive a certeza que iria pedir alguma coisa. Demonstrava fraqueza, alguém de barriga vazia, em jejum. Fiquei ouvindo suas estórias; de onde vinha, para onde iria se fosse alimentado. Como sou contador de estórias, mais as ouço que as conto, fique calado, ouvindo com atenção, me imaginando ser ele, com fome e com desejo de comer, para não desmaiar!

A fome tem pressa. Não pode esperar. Se a demora se estender, ela derruba o vivente. Quem nunca teve tal desmaio, não sabe nem imagina, com precisão, o que seja um estômago vazio, sendo corroído pelos ácidos estomacais. O estômago grita para o cérebro e este enlouquece.

Depois de descrever andanças, trabalhos realizados, trabalhos explorados e logros, chegou a prece como as que dirigimos a Deus, tantas vezes: “Pode me ajudar?”

Eu podia, mas fiquei quieto para ouvi-lo mais. Revirando sua mochila, tirou um guarda-chuva novinho, tentando me vender para ter o que comer, dizia ele! Sem estar interessado no guarda-chuva, eu interiormente já me havia decidido socorrê-lo. Do bolso traseiro da calça peguei a única nota que tinha, uma cinquentona e fiquei imaginando os milhares de famintos do mundo todo, olhando sôfregos para ela. Como eu, em sã consciência, guardava aquela fortuna de cinquenta reais, parado ali, fazendo falta a tantas barrigas vazias ou a tantos desmaios provocados pela fome?

Jônatas era o nome dele. Jonatas levou a “pentecostal”. Partiu célere rumo ao mercado, para apagar o fogo das entranhas vazias que clamavam, se contorcendo das queimaduras ácidas.

Ao meio dia, daquele dia eu quase não almocei pensando repartir com Jônatas a comida à minha frente. Esperei que batesse na porta, mas ele não veio. Então tive uma certeza: Eu alimentei e matei a fome de Jesus!

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