IERP

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA E PASTORAL

DIOCESE DE CACHOEIRA DO SUL

PARÓQUIA  SÃO JOSÉ

 

Em construção

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA E PASTORAL

       

 

2008

Coordenação:

Pe. Edson Pereira

Mons. Elcy Arboitte

Diác. Carlos Machado

Prof. Lourdes Ache Ribeiro

Nadia Suzél Araújo Menezes

 

Promoção:

            O Curso de Educação Religiosa, Catequética e Pastoral do Instituto de Educação Religiosa e Pastoral – IERP é organizado e mantido pela Diocese de Cachoeira do Sul e Paróquia São José.

            É um curso de extensão Universitária da Universidade Franciscana – UNIFRA de Santa Maria.

Justificativa:

            Visa dar um aprofundamento mais qualificado e de uma forma sólida e sistemática de conteúdos teológicos e pastorais as lideranças comunitárias, catequistas, professores e as diversas coordenações das paróquias e comunidades.

Objetivo Geral:

            Proporcionar uma atualização em assuntos teológicos/pastorais para agentes de pastoral educacional, catequistas e lideranças leigas para agirem com mais segurança em sua missão de anunciar e testemunhar a Palavra de Deus.

Disciplinas e conteúdos:

  1. Fundamentos da Educação (28hs)

Psicologia (8) (4)

Fundamentos Filosóficos (8) (4)

Sociologia (4)

  1. Metodologia e Pastoral (62hs)

Didática e Método de Ensino (12) (6)

Pastoral catequética (12) (6)

Teologia Pastoral (12) (6)

Teologia Moral (8)

 

  1. Teologia Bíblica (40hs)

Introdução à Teologia Bíblica (4)

Bíblia: Antigo Testamento (8) (4)

Bíblia: Novo Testamento – Sinóticos (8) (4)

Bíblia: Novo Testamento – Jo e Ap (8) (4)

 

  1. Fundamentos Teológicos (86hs)

Teologia Fundamental (8) (4)

Teologia Trinitária (8)

Teologia Sacramental (8) (4)

Teologia Espiritual (8) (4)

Teologia Litúrgica (12) (6)

Eclesiologia (8) (4)

Mariologia (8) (4)

 

  1. Prática Educativa(30hs)

Estagio supervisionado (12) (12)

Prática Expositiva (6)

 

Metodologia utilizada:

Através de exposições orais de conteúdos sob orientação de um professor ministrante em aula, debates, estudos individuais e em grupos, vídeos, trabalhos extra-classe.

Exigências:

·         Ter identidade cristã;

·         Realizar os trabalhos e o estágio;

·         Freqüência mínima de 75%

·         Engajamento comunitário.

·         Não é exigido grau de escolaridade.

 

Investimentos:

      Cada participante contribuirá com o valor de R$ 130,00. O pagamento poderá ser parcelado durante a realização do curso em 6 (seis) parcelas de R$ 25,00, sendo uma delas no ato da matrícula.

Certificado:

Será fornecido o certificado de conclusão do curso pela Universidade Franciscana – UNIFRA aos alunos que obtiverem freqüência mínima de 75% e os trabalhos com conceitos de O – MB – B – R, com 220 horas.

 

Período de inscrição:

De 10 a 29 de fevereiro de 2008.

Local:

Secretaria das Paróquias de Cachoeira do Sul.

 

Nº de vagas:  70

 CARGA HORÁRIA: 270hs

Local de funcionamento:

Paróquia São José

 

Período de realização do curso:

 

De 06 de março a 04 de dezembro de 2008

 

Horário de funcionamento do curso

 

Todas as Quintas-feiras das 19h às 22h 15 min

 

1º semestre de 2007

 

DATA

DISCIPLINA

PROFESSOR

MAR

6

Psicologia

Cristiane

13

Teologia Litúrgica

Pe. Edson

20

Teologia Litúrgica

Pe. Edson

27

Did. e Mét. de Ensino

Lourdes

ABR

3

Fund. Filosóficos

Vilma

10

Fund. Filosóficos

Vilma

17

Did. e Mét. de Ensino

Lourdes

24

Mariologia

Ir. Erinita

MAI

8

Mariologia

Ir. Irinita

15

Teo. Fundamental

Pe. Edson

29

Teo. Fundamental

Pe. Edson

JUN

5

Teologia Moral

Pe. Helvio

12

Teologia Moral

Pe. Helvio

19

Teologia Trinitária

Mons. Elcy

26

Teologia Trinitária

Mons. Elcy

JUL

3

Teologia Pastoral

Diác. Carlos

10

Teologia Pastoral

Diác. Carlos

17

Teologia Pastoral

Diác. Carlos

24

Did. e Mét. de Ensino

Lourdes

31

Introd à Teo. Bíblica

Sérgio

 

2º semestre de 2007

 

DATA

DISCIPLINA

PROFESS0R

JUL

7

Bíblia: AT

Pe. Luis

14

Bíblia: AT

Pe. Luis

21

Bíblia: NT Sinóticos

Sérgio

28

Bíblia: NT Sinóticos

Sérgio

SET

4

Bíblia: NT Jo e Ap

Sérgio

11

Bíblia: NT Jo e Ap

Sérgio

18

Pastoral Catequética

Nadia

25

Pastoral Catequética

Nádia

OUT

2

Sociologia

Vilma

9

Eclesiologia

Pe. Edson

16

Eclesiologia

Pe. Edson

23

Teologia Sacramental

Mons. Elcy

30

Teologia Sacramental

Mons. Elcy

NOV

6

Teologia Litúrgica

Pe. Edson

13

Teologia Espiritual

Ir. Erinita

20

Teologia Espiritual

Ir. Erinita

27

Psicologia

Cristiane

DEZ

4

Avaliação dos Estágios

Lourdes

11

Formatura

 

Atenção”: Durante o ano haverá dois Simpósios de Teologia, um em cada semestre. O primeiro na área teológica (23 a 25 de junho) sobre Moral do Matrimônio e da Sexualidade e o segundo na área bíblica (22 a 24 de setembro) sobre a Teologia Paulina com a carga horária de 12hs cada.

  

Aula 

Bíblia

Pe. Erno

CURSISTAS DE 2003

TURMA 2006

 

   A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

                            

     Introdução

1. Este tema é muito importante e até necessário para todos nós. Para nós, cristãos, a questão do homem e a questão de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, estão muito unidas e são as grandes questões de hoje. Jesus Cristo é questionado até por povos de tradição cristã e chega-se a vê-lo como uma ameaça mortal ou um estorvo para o homem de hoje. Seria, pois, necessário negar a sua existência e ou defender-se de qualquer influência sua na vida humana. Jesus Cristo é visto como grande inimigo ou adversário do homem.

Este ódio a Cristo ou esta indiferença frente a Ele radica numa falsa imagem do homem e numa falsa imagem de Deus. Se a exaltação ou o endeusamento do homem exige a morte de  Deus, a morte de Deus leva à morte o próprio homem. Se Deus é ameaçado de morte, na vida e na cultura humana atual, também o próprio homem é ameaçado de desprezo e de morte.

Parece estranho, mas Deus está sendo visto como adversário mortal do homem, razão por que, ao querer salvar e afirmar o homem, é preciso matar a Deus ou cortar toda relação com Ele. Para que o super-homem viva é preciso matar a Deus, gritou Nietzsche. Também para Nicolai Hartmann, grande filósofo alemão, é preciso fazer uma opção entre Deus e o homem. A escolha de Deus implica a morte do homem, e a escolha do homem implica a morte de Deus. E ele preferiu escolher o homem e matar a Deus. Para Jean-Paul Sartre, Deus não pode existir porque seria um ser contraditório, pois deveria ser ao mesmo tempo ser e não ser, isto é, ser e nada. Mas, mesmo confessando-se ateu, Sartre reconheceu que a vida humana, sem Deus, é uma “paixão inútil”, porque a aspiração fundamental do homem é ser Deus. O filósofo francês contemporâneo, Michel Onfray, escreveu uma obra famosa e muito lida na Europa: “Tratado de Ateologia”, na qual apresenta a negação de Deus como  condição fundamental para que o homem possa ser um ser livre, pois, para ele, o homem só pode ser e viver como homem, quando Deus desaparece e morre.

Mas se a morte ou a ausência total de Deus faz da vida uma paixão inútil, a existência de Deus faz dela uma paixão sumamente útil: ela não seria uma progressiva fuga de Deus, mas uma progressiva aproximação de Deus e uma união com ele. Vale a pena recordar, aqui, a famosa frase de Santo Agostinho, no início das suas Confissões: “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti”.

Não é difícil constatar que o progressivo afastamento de Deus e o crescente endeusamento do homem e das suas obras – característica da época moderna – mergulharam o homem contemporâneo na confusão e na insegurança, na náusea e no desespero. Vale a pena ouvir o que alguns notáveis pensadores dizem a este respeito:

Gabriel Marcel, filósofo existencialista francês, constata que o aumento vertiginoso dos conhecimentos técnicos e científicos é acompanhado de uma crescente incerteza a respeito do que constitui o ser profundo e último do homem (cf. L´homme problématique, Paris 1955, 73-74).

Max Scheler(1874-1928), grande filósofo alemão da primeira metade do século XX, diz: “Na história de mais de dez mil anos, nós somos a primeira época em que o homem se converteu para si mesmo radical e universalmente em um ser problemático: o homem já não sabe o que é e se dá conta de que não o sabe” (citado por Emiliano Jimenez Hernandez. Quién soy yo? Desclée De Brouwer, Bilbao 1990, pp.15-16).

Martin Heidegger, o filósofo existencialista alemão mais conhecido do século XX, escreve: “Nenhuma época soube conquistar tantos e tão variados conhecimentos a respeito do homem como a nossa... Contudo, nenhuma época conhece tão pouco o homem como a nossa. Em nenhuma época o homem se tornou tão problemático como na nossa” (citado ibid. p.16).

X. Zubiri, grande filósofo espanhol, escreve: “Quando o homem e a razão creram que eles eram tudo, perderam-se a si mesmos; ficaram, de certo modo, aniquilados. Deste modo, o homem do século XX se encontra ainda mais sozinho; esta vez, sem mundo, sem Deus e sem si mesmo; singular condição histórica” (cit. ibid., p. 16).

G. Hourdin, pensador francês, também escreve: “Que é o homem? Questão banal, questão magnífica, questão eterna. Há milhões de anos que os homens se agitam sobre a superfície do bosque, como mosquitos ao lado de um tanque; e desde então milhares e milhões de homem e mulheres puseram-se esta famosa questão. Fizeram-no incansavelmente, com a mesma angústia, com a mesma insistência, com o mesmo sofrimento. Por que nascemos à luz do dia? Por que amamos? Por que estamos destinados a desaparecer? Por que nos devoramos mutuamente? Parece-me que através dos caminhos da história, acima da diversidade de povos e raças, esta interrogação do homem a respeito de si mesmo é o que domina e se ergue sem trégua, sem descanso. Tudo o que dura, tudo o que une, as obras de arte, como as religiões, tem por objeto oferecer um balbucio de resposta a esta inquietante, a esta perpétua questão” (cit. ibid. p.17).

Mas apesar de tudo isto, também hoje o homem continua a perguntar-se a respeito de si mesmo, de sua origem, de seu destino e do sentido de sua vida. Coisa que nenhum ser animal é capaz de fazer. O nosso Millôr Fernandes, na revista Veja do dia 8 de junho de 2005, p. 35, publicou um breve artigo sobre “O significado da vida”, no qual afirma: “Mais complexa do que a Vida, que todos temos e mais ou menos sabemos o que é (ao contrário da morte), está a maior e mais angustiada dúvida do ser humano: qual é o significado da Vida? Quando perguntamos o significado da vida estamos, claro, centrados na vida humana. O ser humano é o único animal que tem a frescura de querer saber de onde vem, pra onde vai, o que é que é.

Frente a todos estes questionamentos, a Igreja Católica considera seu dever, sua missão, ajudar ao homem a encontrar respostas a essas suas profundas e angustiantes perguntas. O Concílio Vaticano II reconhece que estas questões próprias do homem são legítimas e esperam respectivas respostas:

“Por meio de religiões diversas procuram os homens uma resposta aos profundos enigmas para a condição humana, que tanto ontem como hoje afligem intimamente os espíritos dos homens, quais sejam: Que é o homem? Qual é o sentido e fim de nossa vida? Que é bem e que é pecado? Qual a origem dos sofrimentos e qual a sua finalidade? Qual o caminho para obter a verdadeira felicidade? Que é a morte, o julgamento e retribuição após a morte? E, finalmente, que é aquele supremo e inefável mistério que envolve nossa existência, donde nos originamos e para o qual caminhamos?” (Nostra aetate,1; cf. GS 10).

No Vaticano II, a Igreja Católica quis oferecer o seu pensamento sobre o ser humano, sobre o sentido da sua vida, sobre a significação última da sua atividade (cf. Gaudium et Spes, 11ss).

 

2. Qual deve ser a nossa resposta cristã a tantas questões relacionadas com o homem e também com cada um de nós?

É claro que não podemos admitir Deus como um inimigo mortal do homem ou uma séria ameaça para a sua liberdade. Também não podemos admitir que o homem só é verdadeiramente homem, quando Deus deixa de existir para ele.  Nós cremos e sustentamos que Deus é o máximo amigo do homem e que o ser humano se realiza de verdade e é feliz, quando entra e permanece para sempre em comunhão com Deus (cf. Jo c.15).

Esta nossa convicção cristã fundamenta-se numa visão cristã do homem, isto é, no conhecimento natural do homem, mas amplamente enriquecido com o conhecimento que Deus mesmo nos oferece através da sua revelação. O conhecimento, que Deus nos comunica a respeito de si mesmo e das suas criaturas, não anula e nem limita o nosso conhecimento natural do mundo e do homem. Ao contrário, ele o amplia e o enriquece. Tentemos, pois, ver a grandeza e a dignidade do ser humano, valendo-nos da nossa razão mas também  da revelação divina.

3. Divisão do nosso trabalho

 Para falarmos da dignidade da pessoa humana, devemos saber o que é a pessoa humana, pois a sua dignidade deve ter um fundamento. Não podemos falar da dignidade da pessoa humana sem saber o que ela é.

A dignidade da pessoa humana foi destacada sobretudo pelo Cristianismo que ressaltou sua originalidade, sua riqueza e, portanto, também a sua dignidade. Facilmente podemos constatar que, na reflexão sobre o ser humano, quando diminui a influência do pensamento e do amor cristão, diminui também o respeito pela dignidade da pessoa humana.

Nós podemos ver o ser humano a partir do próprio ser humano, mas podemos vê-lo também a partir do que Deus revelou a respeito dele. Vejamos, pois, primeiramente, o homem a partir do próprio homem, depois, a partir da revelação divina, e, por fim, veremos sua singular dignidade. 

 

 

I.                     A VISÃO NATURAL DO SER HUMANO: o ser humano visto a partir da natureza e dos meios naturais

 

O ser humano deseja conhecer-se, quer saber quem ele é. Se ele quer conhecer o mundo, quer também conhecer-se a si mesmo como também suas relações com o mundo. Conhece, por primeiro, realidades do mundo, mas, pouco a pouco, ele se volta para si mesmo e  se compara com as outras realidades do mundo. E, ao fazer isto, descobre o que tem de comum com elas e o que tem de próprio. Este seu querer conhecer-se acompanha-o toda a vida. Assim, pouco a pouco, o homem vai conhecendo a sua rica e complexa realidade. Vê seu parentesco com o mundo, pois, no seu ser, descobre  o ser mineral, o ser vegetal, o ser animal e também o ser espiritual.

O seu ser mineral revela-se no seu tamanho e no seu peso, na sua ocupação de espaço e na possibilidade de ser tocado por tudo o que o circunda. Como ser  material, ele pode ser atingido, medido, ferido e até destruído por outros seres.

Mas logo vê que ele é um ser material especial. Ele é um ser vivo junto com plantas e animais. O ser vivo tem a capacidade de alimentar-se, de desenvolver-se, de reproduzir-se e também de cessar de viver ou de morrer.

Mas ele vê que é um ser vivo especial, muito mais que uma planta. Como o animal, ele pode sentir as qualidades das realidades, as suas cores, os seus cheiros, os seus movimentos, o seu sabor. Como o animal, também o homem tem sentimentos e emoções, desejos e medos, alegrias e tristezas. Como o ser animal também o homem tem também a capacidade de migrar, isto é, de trocar de lugar, o que não faz a planta porque está enraizada e encravada no seu meio ambiente. Graças aos seus meios naturais e aos meios criados por ele mesmo, o ser humano é o ser que mais se locomove ou migra no mundo.

Mas apesar de muitas semelhanças suas com o animal, o ser humano é muito mais que um animal. Nenhuma pessoa fica satisfeita, quando é chamada de animal. Ela não nega sua dimensão animal, mas tem clara consciência de que é um animal muito especial, porque participante do ser espiritual. Espiritualidade é o que carateriza o modo de ser especial e tipico do ser humano.

A espiritualidade do homem manifesta-se na sua capacidade de entender, de ter sentimentos motivados por valores que ultrapassam o material e o sensível, na sua capacidade de fazer sempre coisas novas, de questionar-se sobre o sentido da vida, o sentido do trabalho, o sentido da morte e também sobre a existência de Deus e a sua ligação com ele.

A espiritualidade do homem manifesta-se também na sua capacidade de relacionar-se ou de ligar-se. Ele é o ser que mais relações pode ter. Todo ser vivo tem a capacidade de ligar-se, mas, comparado com a planta e com o animal, o homem tem maior número de relações: ele relaciona-se com as coisas materiais, com os seus semelhantes, com os grupos humanos e com toda a humanidade, com o tempo presente, passado e futuro, com o lugar, isto é, com o que está aqui, ali, acolá; consigo mesmo e por fim com o próprio Ser absoluto.

Toda esta rica capacidade que o homem tem de ligar-se não se baseia no seu ser mineral, vegetal e animal, mas no seu ser espiritual. Vejamos um pouco mais de perto esta dimensão espiritual própria do ser humano.

 

A sua inteligência vai muito além daquela do animal. Se queremos despertar o interesse do animal, temos que valer-nos de algo sensível, de algo que toque os seus sentidos e os seus instintos. Perdemos tempo querer interessá-lo pela beleza de um quadro ou de uma paisagem, pelo programa de um partido, pela Campanha da Fraternidade, pela evangelização, pela salvação do mundo, por Deus, por uma vida boa mais justa e mais fraterna e mais cristã. É inútil querer interessá-lo pela vida futura, pelo sentido da vida, pela malícia do pecado ou pela misericórdia de Deus. Perdemos tempo querer convencê-lo de que também ele está chamado a lutar contra a corrupção e a trabalhar por um mundo mais humano e mais justo.

Também o animal busca muitas coisas, mas o querer humano vai muito além da busca do animal. O homem pode querer a sabedoria, a justiça, a beleza, a bondade. Pode querer lutar por um mundo melhor, mais justo,  por um comportamento ético transparente, por uma vida religiosa melhor, por uma sociedade melhor.

O animal não tem domínio dos seus atos, pois é dominado pelos seus impulsos ou instintos. Não adianta querer convencer um cachorro gordo de que ele deve jejuar para perder uns quilos e tornar-se mais elegante. O animal não responde pelos seus atos, ao passo que o ser humano pode e deve sempre responder pelos seus atos, visto que ele tem domínio sobre os mesmos. O homem é um ser livre porque é um ser inteligente e compreende o sentido e o valor dos seus atos. Eles dependem dele, razão por que deve também responder por eles, pela sua bondade ou pela sua maldade.

Outro grande sinal da espiritualidade humana é a oração. O ser humano é capaz de orar porque pode descobrir sua ligação com Deus e pode cultivar e expressar esta sua relação com palavras e com gestos e com ofertas, ora agradecendo, ora pedindo perdão, ora pedindo ajuda. O animal desconhece a religião e a oração.

Max Scheler diz que “a religião é a mais radical de todas as disposições e capacidades do ser humano” (Em: As mais belas orações de todos os tempos. Seleção e tradução de Rose Marie Muraroe Frei Raimundo Cintra, Rio de Janeiro,Editora Rosa dos Ventos,1994, 9ª edição, p. XV).

Max Müller, o pioneiro da História Comparada das Religiões, diz que “a religião se afirma, em toda parte, como  o fato principal e o mais influente na vida dos indivíduos, das famílias, das nações” (Em: Ibidem, p.XV).

Para Louis Bouyer, “a religião é um fenômeno plenamente humano, irredutível aos outros aspectos da psicologia humana. Longe de ser um fator secundário dentro das demais atitudes psíquicas, ela se apresenta como o mais primitivo e fundamental da alma humana” (ibidem, p. XVII).

Porque é um ser inteligente, o homem é um ser que está em busca de Deus. Na sua introdução ao livro já citado – As mais belas orações de todos os tempos – Frei Raimundo Cintra escreve:

“Sob qualquer hierofania, por mais inferior e distorcida que seja, o que o homem procura é a verdadeira face de Deus. Como o leitor poderá ver no decorrer de todo este livro, desde a idade da pedra até o século XX, o tema central das mais belas orações ou meditações, sob todos os nomes que se lhes dêem, é o Criador, Origem e Harmonia do Universo, Solução final de todos os problemas, Pai cheio de bondade e amor, Fonte de misericórdia e de perdão.

.... Outros caminhos, desde sempre, levaram o homem a Deus: a busca do Amor, da Verdade e da Beleza. Na procura angustiada dos valores essenciais à sua vida, o homem é levado a ultrapassar as formas fragmentárias e perecíveis com que eles se apresentam. O homem busca, então, avidamente, a Verdade inteira, a Beleza sem defeito, a Pureza total, a Perfeição absoluta” (Ibid. p. XVII).

Religião e oração estão intimamente unidas. Ao falar da oração, F. Heiler diz que “a oração é o fenômeno central de toda religião, bem como o sinal distintivo da religiosidade pessoal” (ibid. p. XV).

A religião e a oração são fenômenos tipicamente humanos universais. Assim conclui a introdução do citado livro “As mais belas orações de todos os tempos”:

“Em todos os tempos e em todos os cantos da Terra, os homens se curvaram diante de algo maior que eles mesmos. A ciência progredirá ilimitadamente. Mas, jamais, enquanto houver um só homem sobre a Terra, deixará de viver em seu coração, nítido e global, o conhecimento de que o mistério do Universo o ultrapassa infinitamente. E é à harmonia que mantém existindo esse Universo, que ele, o último homem sobre a Terra, dirigirá a sua admiração, o seu sentimento de dependência, a sua oração” (ibid. XIX).

 

Graças aos seus sentidos e à sua inteligência, o ser humano tem consciência de sua originalidade entre todos os demais seres do mundo: um ser material vivo sensitivo inteligente capaz de amar e de fazer o que nenhum animal é capaz de fazer. Se ele não duvida da sua corporeidade e materialidade, muito difícil é também que ele duvide da sua espiritualidade, da dimensão que supera a dimensão material. Sem o corpo, não seria homem, mas também não seria homem, sem o espírito.

Mas como estas duas dimensões fazem um eu, um indivíduo que existe, que vive, que sente e que diz eu e responde pelos seus atos? Que união existe entre o princípio corporal e o princípio espiritual? A união do corporal e do espiritual no indivíduo humano é um dos problemas humanos mais difíceis de compreender e de explicar. A relação da alma e do corpo é uma questão eterna para o homem e, ao longo da história, foram dadas muitas explicações que podem ser concentradas em três: a monista, a dualista e a aristotélico-tomista.

 

A monista aparece no materialismo e no idealismo

 

O materialismo afirma que tudo é matéria e produto ou expressão da matéria. Tudo é material, tudo provém da matéria e tudo se reduz à matéria. Também o ser humano é um ser puramente material. Tudo o que há no homem e na vida humana provém da matéria. Também sua alma reduz-se a puros fenômenos psíquicos, os quais se reduzem ao mecanismo dos fenômenos fisiológicos do sistema nervoso. Tudo o que há no homem é experimentalmente cognoscível e controlável. O homem é uma máquina especial, mas sempre máquina.

Esta visão materialista do homem apareceu na antiguidade e na época moderna e continua presente também na época contemporânea: o homem é um amontoado de átomos,  uma máquina composta de muitos aparelhos e peças, uma concretização ou expressão da matéria. O próprio pensamento humano se explica pelo seu sistema nervoso e seu funcionamento reduz-se a elementos químicos. Portanto, a vida psíquica do homem é um fenômeno ou manifestação da matéria. Na interpretação materialista do homem, “todas as expressões humanas não são outra coisa que extensões da matéria: os fenômenos da consciência não são mais que reflexos interiores de processos corpóreos e fisiológicos” (Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. 35).

Mas esta visão monista-materialista do ser humano não consegue explicar mecanicamente o fato da consciência humana, a sua capacidade de sentir, de refletir, de representar. Já Thomas Hobbes dizia: “De todos os fenômenos que são ou estão vizinhos a nós, o mais admirável é que alguns corpos naturais têm em si os modelos de todas as coisas e outros não” (De corpore I,389). Por que não admitir que toda a natureza está dotada de consciência, isto é, o panpsiquismo? (Cf. Dizionario delle´Idee, uomo, p. 1229-1230).

 

Outra interpretação monista do homem é dada pelo idealismo que faz do corpo uma manifestação fenomênica do espírito. Mas também esta posição é muito fraca, pois como compreender e explicar a dimensão empírica do homem (que ele é este, aquele, que está aqui), os seus limites, as suas imperfeições que a experiência de cada dia nos apresenta com inegável precisão? Além disso, a dimensão corporal pode facilitar, dificultar e até bloquear a atividade do espírito (cf. ibidem, p. 1230).

 

A interpretação dualística do ser humano vem da filosofia grega e também da filosofia racionalista moderna: o homem é composto de duas realidades diferentes e completas, isto é, alma e corpo.

Famosa é a visão platônica do ser humano:

“A interpretação platônica é claramente dualística: corpo e alma são duas realidades unidas exteriormente somente durante a existência humana. Este dualismo funda suas raízes nas doutrinas religiosas do orfismo sobre a preexistência , a queda e a emigração da alma. A alma é uma planta celestial, preexistente ao corpo, que se encontra agora, devido a uma culpa original, desterrada e encarcerada no corpo. De natureza divina e imortal, a alma espiritual terá que purificar-se e libertar-se do corpo. Nos primeiros diálogos de Platão o corpo aparece como prisão da alma. Não só é preciso libertar-se do cárcere das paixões, mas inclusive do conhecimento sensitivo, já que ambas coisas impedem chegar à verdade autêntica. Somente quando a inteligência se separe do corpo, poderá chegar à contemplação da verdade. A plenitude da existência humana só poderá ser conseguida com a libertação do corpo, que se verificará na morte, passando à condição de imortalidade, pela qual a alma anela desde esta existência corpórea.

Posteriormente, com a imagem do barqueiro e da barca, Platão dará uma valorização mais positiva ao corpo, embora continue sublinhando a primazia do espírito. Os sentidos e as demais funções do corpo podem colaborar na realização do homem, como barca que leva a alma, embora seja ela o barqueiro que guia a barca.

Corpo e alma são, pois, para Platão duas realidades profundamente diversas, mas de fato independentes. Sua preocupação consiste em acentuar que a autêntica realização do homem deve ser buscada na existência espiritual, que se liberta gradualmente do mundo e da matéria. Realização não só intelectual, mas realização também no campo do amor. O autêntico amor não se detém no corpo nem na esfera dos sentidos, mas se orienta diretamente ao espírito da outra pessoa. Neste sentido é que se fala de “amor platônico” ( Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. pp 31-33). Cf. As mais belas orações, pp.55-57).

O dualismo platônico levou à infravalorização do corpo e a considerar como pecaminosa toda sexualidade e à fuga do mundo que caracterizou muitos séculos da história do ocidente (cf. ibid. 33).

 

A visão dualista do homem na época moderna está sobretudo em Renato Descartes. Emiliano Jimenez Hernandez assim se refere a Descartes:

“Descartes acentuará este dualismo, postulando a clara e radical divisão entre o corpo e a consciência. O corpo humano, como qualquer outro corpo, se explica sem sua alma, sobre a base mecânica dos átomos. No fundo não é mais que uma realidade atômica, física, extensa.

A alma, chamada geralmente consciência, embora esteja concreta e ativamente ligada e unida com o corpo, é, na realidade, totalmente diversa do corpo. É consciência pura, transparente a si mesma; é a quinta-essência do homem.

Observando que esta verdade “eu penso, logo existo” era firme e segura, conheci que eu era uma substância cuja essência e natureza toda é pensar, e que não necessita, para ser, de nenhum lugar, nem depende de coisa alguma material; de sorte que este eu, isto é, a alma pela qual eu sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e até mais fácil de conhecer que este, e, embora o corpo não existisse, a alma não deixaria de ser quanto ela é.

A certeza fundamental do homem, sua verdade primeira e indubitável é a consciência que “pensa” o mundo e a existência do eu se impõe com certeza indubitável no ato de pensar. Trata-se da interpretação racionalista do homem” (op.cit. 33-34).

 

A visão racionalista do homem absolutiza a consciência que “pensa” o mundo e minimaliza a densidade do mundo material e o valor do corpo. O empirismo materialista absolutiza a importância do mundo material e do corpo e minimaliza a densidade e a consistência da consciência. ... O eu não seria outra coisa que um feixe de percepções que se seguem umas a outras com grande velocidade, em eterno movimento (cf. Ibidem, 36-37).

 

A solução mista ou a interpretação aristotélico-tomista do homem

 

Aristóteles não aceita a interpretação monista-materialista, como também a interpretação platônica do ser humano. Para ele, o homem não é um fenômeno da matéria, nem é um espírito caído do céu e ligado temporariamente ao corpo, mas é um ser concreto corporal-espiritual. Aristóteles parte do ser humano concreto e procura compreendê-lo. Vê que o homem é um ser  corporal-espiritual uno. Tanto o corporal como o espiritual são princípios essenciais do ser humano. O corpo não é o homem e nem o espírito é o homem. Corpo e espírito são princípios constitutivos do ser humano.

Mas como se distinguem? Em tudo o que nós vemos ou fazemos, há algo que é determinado ou trabalhado e algo que determina. Para Aristóteles, todo ser finito é composto de um elemento determinável (a matéria) e de um elemento determinante (a forma). No caso do homem, o elemento determinável é o corpo e o elemento determinante é a alma. Sua é a explicação hilemórfica do ser finito: todo ser finito é composto de matéria e forma. Ora todo ser humano é um ser finito. Também ele, portanto, consta de matéria e forma. Matéria é seu corpo e forma é sua alma.

Aristóteles vê como a alma transcende o corpo, mas não tem condições de justificar a imortalidade da alma e nem de afirmar que ela é criada por Deus, pois a filosofia grega desconhece a idéia de criação.

Tomás de Aquino amplia a visão de Aristóteles afirmando a transcendência da alma sobre o corpo e conseqüentemente a sua imortalidade. A alma não pode proceder do material, mas é fruto do ato criador de Deus. A inteligência humana, que transcende as dimensões da matéria, se radica na alma “que é o ato do corpo físico orgânico” (De unit. Int.3: in Opusc. philos. Torino 1954, n. 231).

Mas, se a filosofia grega desconhecia a revelação divina, ela esteve aberta à mesma. Por isso, vejamos o que de novo a revelação divina traz à reflexão do homem sobre o homem.

 

II.                   A VISÃO CRISTÃ OU SOBRENATURAL DO HOMEM

 

O ser humano pode ser visto também a partir do que Deus se dignou dizer-lhe, ao longo da história, através dos seus profetas e sobretudo através do seu próprio Filho eterno feito homem na plenitude dos tempos. Assim como há um conhecimento de Deus baseado nas suas criaturas, assim também há um conhecimento de Deus fundamentado em sua própria palavra cujo ponto culminante é Jesus Cristo, o grande revelador de Deus e também da grandeza e da dignidade do ser humano. O Deus dos cristãos, dos judeus e dos muçulmanos é um Deus que fala e sua palavra é transmitida pela voz e pela escrita.

 Cristãos, judeus e muçulmanos são monoteístas, isto é, admitem um único Deus, e todos eles colocam no centro a palavra de Deus. Os judeus se baseiam na Escritura do Antigo Testamento e os muçulmanos no Alcorão, escrito por Maomé (571-632), o Profeta de Alá. Muitas partes do Alcorão são tiradas do Antigo e também do Novo Testamento. Os cristãos têm como seu livro sagrado a Bíblia, a coleção dos escritos inspirados pelo Espírito de Deus, antes e depois de Cristo, isto é, os escritos dos profetas, dos evangelistas e dos apóstolos. Para os cristãos é sumamente importante esta afirmação da Sagrada Escritura: “Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; mas ultimamente falou-nos por seu Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por quem igualmente criou o mundo. Resplendor de sua glória e figura da sua substância, este mantém igualmente o universo pelo poder de sua palavra” (He 1,1-3a). Portanto, o nosso Deus falou pelos profetas, mas sobretudo em seu Filho Jesus, Verbo eterno feito homem.

Jesus Cristo é o Verbo, a Palavra de Deus ou o Deus feito palavra: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia vida e a vida era a luz dos homens... Esta luz era a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem... Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,1-18). Esta luz divina, que é Jesus Cristo, ilumina o mundo e ilumina sobretudo a vida humana, quando o homem não tenta apagá-la ou esquivar-se dela.

 Mas por que Deus quis falar ao homem ou fazer-se palavra? Vale a ler um dos textos mais importantes do Vaticano II:

 “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade (cf.Ef.1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e ao Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 1,18; 2 Ped 1,4). Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível (cf. Col 1,15; 1Tm 1,17), levado pelo seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber” (DV 2).