IERP
DIOCESE DE CACHOEIRA DO SUL
PARÓQUIA SÃO JOSÉ

Em construção
|
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA E
PASTORAL |
|
2008 Coordenação: Pe. Edson Pereira Mons. Elcy Arboitte Diác. Carlos Machado Prof. Lourdes Ache Ribeiro Nadia Suzél Araújo Menezes
Promoção: O Curso de Educação Religiosa, Catequética e Pastoral do Instituto de Educação Religiosa e Pastoral – IERP é organizado e mantido pela Diocese de Cachoeira do Sul e Paróquia São José. É um curso de extensão Universitária da Universidade Franciscana – UNIFRA de Santa Maria. Justificativa: Visa dar um aprofundamento mais qualificado e de uma forma sólida e sistemática de conteúdos teológicos e pastorais as lideranças comunitárias, catequistas, professores e as diversas coordenações das paróquias e comunidades. Objetivo Geral: Proporcionar uma atualização em assuntos teológicos/pastorais para agentes de pastoral educacional, catequistas e lideranças leigas para agirem com mais segurança em sua missão de anunciar e testemunhar a Palavra de Deus. Disciplinas e conteúdos:
Psicologia (8) (4) Fundamentos Filosóficos (8) (4) Sociologia (4)
Didática e Método de Ensino (12) (6) Pastoral catequética (12) (6) Teologia Pastoral (12) (6) Teologia Moral (8)
Introdução à Teologia Bíblica (4) Bíblia: Antigo Testamento (8) (4) Bíblia: Novo Testamento – Sinóticos (8) (4) Bíblia: Novo Testamento – Jo e Ap (8) (4)
Teologia Fundamental (8) (4) Teologia Trinitária (8) Teologia Sacramental (8) (4) Teologia Espiritual (8) (4) Teologia Litúrgica (12) (6) Eclesiologia (8) (4) Mariologia (8) (4)
Estagio supervisionado (12) (12) Prática Expositiva (6)
Metodologia utilizada: Através de exposições orais de conteúdos sob orientação de um professor ministrante em aula, debates, estudos individuais e em grupos, vídeos, trabalhos extra-classe. Exigências: · Ter identidade cristã; · Realizar os trabalhos e o estágio; · Freqüência mínima de 75% · Engajamento comunitário. · Não é exigido grau de escolaridade.
Investimentos: Cada participante contribuirá com o valor de R$ 130,00. O pagamento poderá ser parcelado durante a realização do curso em 6 (seis) parcelas de R$ 25,00, sendo uma delas no ato da matrícula. Certificado: Será fornecido o certificado de conclusão do curso pela Universidade Franciscana – UNIFRA aos alunos que obtiverem freqüência mínima de 75% e os trabalhos com conceitos de O – MB – B – R, com 220 horas.
Período de inscrição: De 10 a 29 de fevereiro de 2008. Local: Secretaria das Paróquias de Cachoeira do Sul.
Nº de vagas: 70 CARGA HORÁRIA: 270hs Local de funcionamento: Paróquia São José
Período de realização do curso:
De 06 de março a 04 de dezembro de 2008
Horário de funcionamento do curso
Todas as Quintas-feiras das 19h às 22h 15 min
1º semestre de 2007
2º semestre de 2007
“Atenção”: Durante o ano haverá dois Simpósios de Teologia, um em cada semestre. O primeiro na área teológica (23 a 25 de junho) sobre Moral do Matrimônio e da Sexualidade e o segundo na área bíblica (22 a 24 de setembro) sobre a Teologia Paulina com a carga horária de 12hs cada.
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Aula
Bíblia Pe. Erno |
CURSISTAS DE 2003 |
|
TURMA 2006 |
|
|
|
A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA |
|
Introdução 1. Este tema é muito importante e até necessário para todos nós.
Para nós, cristãos, a questão do homem e a questão de Jesus Cristo,
Filho de Deus feito homem, estão muito unidas e são as grandes questões
de hoje. Jesus Cristo é questionado até por povos de tradição cristã
e chega-se a vê-lo como uma ameaça mortal ou um estorvo para o homem de
hoje. Seria, pois, necessário negar a sua existência e ou defender-se de
qualquer influência sua na vida humana. Jesus Cristo é visto como grande
inimigo ou adversário do homem. Este
ódio a Cristo ou esta indiferença frente a Ele radica numa falsa imagem
do homem e numa falsa imagem de Deus. Se a exaltação ou o endeusamento
do homem exige a morte de Deus,
a morte de Deus leva à morte o próprio homem. Se Deus é ameaçado de
morte, na vida e na cultura humana atual, também o próprio homem é ameaçado
de desprezo e de morte. Parece
estranho, mas Deus está sendo visto como adversário mortal do homem, razão
por que, ao querer salvar e afirmar o homem, é preciso matar a Deus ou
cortar toda relação com Ele. Para que o super-homem viva é preciso
matar a Deus, gritou Nietzsche. Também para Nicolai Hartmann, grande filósofo
alemão, é preciso fazer uma opção entre Deus e o homem. A escolha de
Deus implica a morte do homem, e a escolha do homem implica a morte de
Deus. E ele preferiu escolher o homem e matar a Deus. Para Jean-Paul
Sartre, Deus não pode existir porque seria um ser contraditório, pois
deveria ser ao mesmo tempo ser e não ser, isto é, ser e nada. Mas, mesmo
confessando-se ateu, Sartre reconheceu que a vida humana, sem Deus, é uma
“paixão inútil”, porque a aspiração fundamental do homem é ser
Deus. O filósofo francês contemporâneo, Michel Onfray, escreveu uma
obra famosa e muito lida na Europa: “Tratado de Ateologia”, na
qual apresenta a negação de Deus como
condição fundamental para que o homem possa ser um ser livre,
pois, para ele, o homem só pode ser e viver como homem, quando Deus
desaparece e morre. Mas
se a morte ou a ausência total de Deus faz da vida uma paixão inútil, a
existência de Deus faz dela uma paixão sumamente útil: ela não seria
uma progressiva fuga de Deus, mas uma progressiva aproximação de Deus e
uma união com ele. Vale a pena recordar, aqui, a famosa frase de Santo
Agostinho, no início das suas Confissões: “Tu nos fizeste para
ti, Senhor, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em
ti”. Não
é difícil constatar que o progressivo afastamento de Deus e o crescente
endeusamento do homem e das suas obras – característica da época
moderna – mergulharam o homem contemporâneo na confusão e na insegurança,
na náusea e no desespero. Vale a pena ouvir o que alguns notáveis
pensadores dizem a este respeito: Gabriel
Marcel, filósofo existencialista francês, constata que o aumento
vertiginoso dos conhecimentos técnicos e científicos é acompanhado de uma
crescente incerteza a respeito do que constitui o ser profundo e último
do homem (cf. L´homme problématique, Paris 1955, 73-74). Max
Scheler(1874-1928), grande filósofo alemão da primeira metade do século
XX, diz: “Na história de mais de dez mil anos, nós somos a primeira
época em que o homem se converteu para si mesmo radical e universalmente
em um ser problemático: o homem já não sabe o que é e se dá conta de
que não o sabe” (citado por Emiliano Jimenez Hernandez. Quién soy
yo? Desclée De Brouwer, Bilbao 1990, pp.15-16). Martin
Heidegger, o filósofo existencialista alemão mais conhecido do século
XX, escreve: “Nenhuma época soube conquistar tantos e tão variados
conhecimentos a respeito do homem como a nossa... Contudo, nenhuma época
conhece tão pouco o homem como a nossa. Em nenhuma época o homem se
tornou tão problemático como na nossa” (citado ibid. p.16). X.
Zubiri, grande filósofo espanhol, escreve: “Quando o homem e a razão
creram que eles eram tudo, perderam-se a si mesmos; ficaram, de certo
modo, aniquilados. Deste modo, o homem do século XX se encontra ainda
mais sozinho; esta vez, sem mundo, sem Deus e sem si mesmo; singular condição
histórica” (cit. ibid., p. 16). G.
Hourdin, pensador francês, também escreve: “Que é o homem? Questão
banal, questão magnífica, questão eterna. Há milhões de anos que os
homens se agitam sobre a superfície do bosque, como mosquitos ao lado de
um tanque; e desde então milhares e milhões de homem e mulheres
puseram-se esta famosa questão. Fizeram-no incansavelmente, com a mesma
angústia, com a mesma insistência, com o mesmo sofrimento. Por que
nascemos à luz do dia? Por que amamos? Por que estamos destinados a
desaparecer? Por que nos devoramos mutuamente? Parece-me que através dos
caminhos da história, acima da diversidade de povos e raças, esta
interrogação do homem a respeito de si mesmo é o que domina e se ergue
sem trégua, sem descanso. Tudo o que dura, tudo o que une, as obras de
arte, como as religiões, tem por objeto oferecer um balbucio de resposta
a esta inquietante, a esta perpétua questão” (cit. ibid. p.17). Mas
apesar de tudo isto, também hoje o homem continua a perguntar-se a
respeito de si mesmo, de sua origem, de seu destino e do sentido de sua
vida. Coisa que nenhum ser animal é capaz de fazer. O nosso Millôr
Fernandes, na revista Veja do dia 8 de junho de 2005, p. 35,
publicou um breve artigo sobre “O significado da vida”, no qual
afirma: “Mais complexa do que a Vida, que todos temos e mais ou menos
sabemos o que é (ao contrário da morte), está a maior e mais angustiada
dúvida do ser humano: qual é o significado da Vida? Quando
perguntamos o significado da vida estamos, claro, centrados na vida
humana. O ser humano é o único animal que tem a frescura de querer
saber de onde vem, pra onde vai, o que é que é”. Frente
a todos estes questionamentos, a Igreja Católica considera seu dever, sua
missão, ajudar ao homem a encontrar respostas a essas suas profundas e
angustiantes perguntas. O Concílio Vaticano II reconhece que estas questões
próprias do homem são legítimas e esperam respectivas respostas: “Por
meio de religiões diversas procuram os homens uma resposta aos profundos
enigmas para a condição humana, que tanto ontem como hoje afligem
intimamente os espíritos dos homens, quais sejam: Que é o homem? Qual é
o sentido e fim de nossa vida? Que é bem e que é pecado? Qual a origem
dos sofrimentos e qual a sua finalidade? Qual o caminho para obter a
verdadeira felicidade? Que é a morte, o julgamento e retribuição após
a morte? E, finalmente, que é aquele supremo e inefável mistério que
envolve nossa existência, donde nos originamos e para o qual
caminhamos?” (Nostra
aetate,1; cf. GS 10). No
Vaticano II, a Igreja Católica quis oferecer o seu pensamento sobre o ser
humano, sobre o sentido da sua vida, sobre a significação última da sua
atividade (cf. Gaudium et Spes, 11ss). 2.
Qual deve ser a nossa resposta cristã a tantas questões relacionadas
com o homem e também com cada um de nós? É
claro que não podemos admitir Deus como um inimigo mortal do homem ou uma
séria ameaça para a sua liberdade. Também não podemos admitir que o
homem só é verdadeiramente homem, quando Deus deixa de existir para ele.
Nós cremos e sustentamos que Deus é o máximo amigo do homem e
que o ser humano se realiza de verdade e é feliz, quando entra e
permanece para sempre em comunhão com Deus (cf. Jo c.15). Esta
nossa convicção cristã fundamenta-se numa visão cristã do homem, isto
é, no conhecimento natural do homem, mas amplamente enriquecido com o
conhecimento que Deus mesmo nos oferece através da sua revelação. O
conhecimento, que Deus nos comunica a respeito de si mesmo e das suas
criaturas, não anula e nem limita o nosso conhecimento natural do mundo e
do homem. Ao contrário, ele o amplia e o enriquece. Tentemos, pois, ver a
grandeza e a dignidade do ser humano, valendo-nos da nossa razão mas também
da revelação divina. 3.
Divisão do nosso trabalho Para falarmos da dignidade da pessoa humana, devemos saber o
que é a pessoa humana, pois a sua dignidade deve ter um fundamento. Não
podemos falar da dignidade da pessoa humana sem saber o que ela é. A
dignidade da pessoa humana foi destacada sobretudo pelo Cristianismo que
ressaltou sua originalidade, sua riqueza e, portanto, também a sua
dignidade. Facilmente podemos constatar que, na reflexão sobre o ser
humano, quando diminui a influência do pensamento e do amor cristão,
diminui também o respeito pela dignidade da pessoa humana. Nós
podemos ver o ser humano a partir do próprio ser humano, mas podemos vê-lo
também a partir do que Deus revelou a respeito dele. Vejamos, pois,
primeiramente, o homem a partir do próprio homem, depois, a partir da
revelação divina, e, por fim, veremos sua singular dignidade.
I.
A
VISÃO NATURAL DO SER HUMANO: o ser humano visto a partir da natureza e
dos meios naturais
O ser humano deseja conhecer-se, quer saber quem ele é. Se ele quer
conhecer o mundo, quer também conhecer-se a si mesmo como também suas
relações com o mundo. Conhece, por primeiro, realidades do mundo, mas,
pouco a pouco, ele se volta para si mesmo e
se compara com as outras realidades do mundo. E, ao fazer isto,
descobre o que tem de comum com elas e o que tem de próprio. Este seu
querer conhecer-se acompanha-o toda a vida. Assim, pouco a pouco, o homem
vai conhecendo a sua rica e complexa realidade. Vê seu parentesco com o
mundo, pois, no seu ser, descobre o
ser mineral, o ser vegetal, o ser animal e também o ser espiritual. O
seu ser mineral revela-se
no seu tamanho e no seu peso, na sua ocupação de espaço e na
possibilidade de ser tocado por tudo o que o circunda. Como ser
material, ele pode ser atingido, medido, ferido e até destruído
por outros seres. Mas
logo vê que ele é um ser material especial. Ele é um ser vivo
junto com plantas e animais. O ser vivo tem a capacidade de
alimentar-se, de desenvolver-se, de reproduzir-se e também de cessar de
viver ou de morrer. Mas
ele vê que é um ser vivo especial,
muito mais que uma planta. Como o animal, ele pode sentir as qualidades
das realidades, as suas cores, os seus cheiros, os seus movimentos, o seu
sabor. Como o animal, também o homem tem sentimentos e emoções, desejos
e medos, alegrias e tristezas. Como o ser animal também o homem tem também
a capacidade de migrar, isto é, de trocar de lugar, o que não faz a
planta porque está enraizada e encravada no seu meio ambiente. Graças
aos seus meios naturais e aos meios criados por ele mesmo, o ser humano é
o ser que mais se locomove ou migra no mundo. Mas
apesar de muitas semelhanças suas com o animal, o ser humano é muito
mais que um animal. Nenhuma pessoa fica satisfeita, quando é chamada
de animal. Ela não nega sua dimensão animal, mas tem clara consciência
de que é um animal muito especial, porque participante do ser espiritual.
Espiritualidade é o que carateriza o modo de ser especial e tipico do ser
humano. A
espiritualidade do homem manifesta-se na sua capacidade de entender, de
ter sentimentos motivados por valores que ultrapassam o material e o sensível,
na sua capacidade de fazer sempre coisas novas, de questionar-se sobre o
sentido da vida, o sentido do trabalho, o sentido da morte e também sobre
a existência de Deus e a sua ligação com ele. A
espiritualidade do homem manifesta-se também na sua capacidade de
relacionar-se ou de ligar-se.
Ele é o ser que mais relações pode ter. Todo ser vivo tem a capacidade
de ligar-se, mas, comparado com a planta e com o animal, o homem tem maior
número de relações: ele relaciona-se com as coisas materiais, com os
seus semelhantes, com os grupos humanos e com toda a humanidade, com o
tempo presente, passado e futuro, com o lugar, isto é, com o que está
aqui, ali, acolá; consigo mesmo e por fim com o próprio Ser absoluto. Toda
esta rica capacidade que o homem tem de ligar-se não se baseia no seu ser
mineral, vegetal e animal, mas no seu ser espiritual. Vejamos um pouco
mais de perto esta dimensão espiritual própria do ser humano. A
sua inteligência vai muito além daquela do animal. Se queremos despertar o interesse do animal, temos que valer-nos de
algo sensível, de algo que toque os seus sentidos e os seus instintos.
Perdemos tempo querer interessá-lo pela beleza de um quadro ou de uma
paisagem, pelo programa de um partido, pela Campanha da Fraternidade, pela
evangelização, pela salvação do mundo, por Deus, por uma vida boa mais
justa e mais fraterna e mais cristã. É inútil querer interessá-lo pela
vida futura, pelo sentido da vida, pela malícia do pecado ou pela misericórdia
de Deus. Perdemos tempo querer convencê-lo de que também ele está
chamado a lutar contra a corrupção e a trabalhar por um mundo mais
humano e mais justo. Também
o animal busca muitas coisas, mas o querer humano vai muito além da
busca do animal. O homem pode querer a sabedoria, a justiça, a
beleza, a bondade. Pode querer lutar por um mundo melhor, mais justo,
por um comportamento ético transparente, por uma vida religiosa
melhor, por uma sociedade melhor. O
animal não tem domínio dos seus atos, pois é dominado pelos seus
impulsos ou instintos.
Não adianta querer convencer um cachorro gordo de que ele deve jejuar
para perder uns quilos e tornar-se mais elegante. O animal não responde
pelos seus atos, ao passo que o ser humano pode e deve sempre responder
pelos seus atos, visto que ele tem domínio sobre os mesmos. O
homem é um ser livre porque é um ser inteligente e compreende o sentido
e o valor dos seus atos. Eles dependem dele, razão por que deve também
responder por eles, pela sua bondade ou pela sua maldade. Outro
grande sinal da espiritualidade humana é a oração. O ser humano é capaz de orar porque pode descobrir
sua ligação com Deus e pode cultivar e expressar esta sua relação com
palavras e com gestos e com ofertas, ora agradecendo, ora pedindo perdão,
ora pedindo ajuda. O animal desconhece a religião e a oração. Max
Scheler diz que “a religião é a mais radical de todas as disposições
e capacidades do ser humano” (Em: As mais belas orações de
todos os tempos. Seleção e tradução de Rose Marie Muraroe Frei
Raimundo Cintra, Rio de Janeiro,Editora Rosa dos Ventos,1994, 9ª edição,
p. XV). Max
Müller, o pioneiro da História Comparada das Religiões, diz que “a
religião se afirma, em toda parte, como
o fato principal e o mais influente na vida dos indivíduos, das
famílias, das nações” (Em: Ibidem, p.XV). Para
Louis Bouyer, “a religião é um fenômeno plenamente
humano, irredutível aos outros aspectos da psicologia humana. Longe de
ser um fator secundário dentro das demais atitudes psíquicas, ela se
apresenta como o mais primitivo e fundamental da alma humana”
(ibidem, p. XVII). Porque
é um ser inteligente, o homem é um ser que está em busca de Deus. Na sua introdução ao livro já citado – As
mais belas orações de todos os tempos – Frei Raimundo Cintra
escreve: “Sob qualquer hierofania, por mais inferior e distorcida que seja, o
que o homem procura é a verdadeira face de Deus. Como o leitor poderá
ver no decorrer de todo este livro, desde a idade da pedra até o século
XX, o tema central das mais belas orações ou meditações, sob todos os
nomes que se lhes dêem, é o Criador, Origem e Harmonia do Universo,
Solução final de todos os problemas, Pai cheio de bondade e amor, Fonte
de misericórdia e de perdão. ....
Outros caminhos, desde sempre, levaram o homem a Deus: a busca do Amor, da
Verdade e da Beleza. Na procura angustiada dos valores essenciais à sua
vida, o homem é levado a ultrapassar as formas fragmentárias e perecíveis
com que eles se apresentam. O homem busca, então, avidamente, a
Verdade inteira, a Beleza sem defeito, a Pureza total, a Perfeição
absoluta” (Ibid. p. XVII). Religião
e oração estão intimamente unidas. Ao falar da oração, F. Heiler diz
que “a oração é o fenômeno central de toda religião, bem como
o sinal distintivo da religiosidade pessoal” (ibid. p. XV). A
religião e a oração são fenômenos tipicamente humanos universais. Assim conclui a introdução do citado livro “As
mais belas orações de todos os tempos”: “Em
todos os tempos e em todos os cantos da Terra, os homens se curvaram
diante de algo maior que eles mesmos. A ciência progredirá
ilimitadamente. Mas, jamais, enquanto houver um só homem sobre a Terra,
deixará de viver em seu coração, nítido e global, o conhecimento de
que o mistério do Universo o ultrapassa infinitamente. E é à harmonia
que mantém existindo esse Universo, que ele, o último homem sobre a
Terra, dirigirá a sua admiração, o seu sentimento de dependência, a
sua oração”
(ibid. XIX). Graças
aos seus sentidos e à sua inteligência, o ser humano tem consciência de
sua originalidade entre todos os demais seres do mundo: um ser material
vivo sensitivo inteligente capaz de amar e de fazer o que nenhum animal é
capaz de fazer. Se ele não duvida da sua corporeidade e
materialidade, muito difícil é também que ele duvide da sua
espiritualidade, da dimensão que supera a dimensão material. Sem o
corpo, não seria homem, mas também não seria homem, sem o espírito. Mas
como estas duas dimensões fazem um eu, um indivíduo que existe, que
vive, que sente e que diz eu e responde pelos seus atos? Que união existe
entre o princípio corporal e o princípio espiritual? A união do
corporal e do espiritual no indivíduo humano é um dos problemas humanos
mais difíceis de compreender e de explicar. A relação da alma e do
corpo é uma questão eterna para o homem e, ao longo da história, foram
dadas muitas explicações que podem ser concentradas em três: a monista,
a dualista e a aristotélico-tomista. A
monista aparece no materialismo e no idealismo O
materialismo
afirma que tudo é matéria e produto ou expressão da matéria. Tudo é
material, tudo provém da matéria e tudo se reduz à matéria. Também o
ser humano é um ser puramente material. Tudo o que há no homem e na vida
humana provém da matéria. Também sua alma reduz-se a puros fenômenos
psíquicos, os quais se reduzem ao mecanismo dos fenômenos fisiológicos
do sistema nervoso. Tudo o que há no homem é experimentalmente cognoscível
e controlável. O homem é uma máquina especial, mas sempre máquina. Esta
visão materialista do homem apareceu na antiguidade e na época moderna e
continua presente também na época contemporânea: o homem é um
amontoado de átomos, uma máquina
composta de muitos aparelhos e peças, uma concretização ou expressão
da matéria. O próprio pensamento humano se explica pelo seu sistema
nervoso e seu funcionamento reduz-se a elementos químicos. Portanto, a
vida psíquica do homem é um fenômeno ou manifestação da matéria. Na
interpretação materialista do homem, “todas as expressões humanas
não são outra coisa que extensões da matéria: os fenômenos da consciência
não são mais que reflexos interiores de processos corpóreos e fisiológicos”
(Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. 35). Mas
esta visão monista-materialista do ser humano não consegue explicar
mecanicamente o fato da consciência humana, a sua capacidade de sentir,
de refletir, de representar. Já Thomas Hobbes dizia: “De todos os
fenômenos que são ou estão vizinhos a nós, o mais admirável é que
alguns corpos naturais têm em si os modelos de todas as coisas e outros não”
(De corpore I,389). Por que não admitir que toda a natureza está
dotada de consciência, isto é, o panpsiquismo? (Cf. Dizionario
delle´Idee, uomo, p. 1229-1230). Outra
interpretação monista do homem é dada pelo idealismo que faz do
corpo uma manifestação fenomênica do espírito. Mas também esta
posição é muito fraca, pois como compreender e explicar a dimensão empírica
do homem (que ele é este, aquele, que está aqui), os seus limites, as
suas imperfeições que a experiência de cada dia nos apresenta com inegável
precisão? Além disso, a dimensão corporal pode facilitar, dificultar e
até bloquear a atividade do espírito (cf. ibidem, p. 1230). A
interpretação dualística do ser humano vem da filosofia grega e também
da filosofia racionalista moderna:
o homem é composto de duas realidades diferentes e completas, isto é,
alma e corpo. Famosa
é a visão platônica do ser humano: “A interpretação platônica é claramente dualística: corpo e alma
são duas realidades unidas exteriormente somente durante a existência
humana. Este dualismo funda suas raízes nas doutrinas religiosas do
orfismo sobre a preexistência , a queda e a emigração da alma. A alma
é uma planta celestial, preexistente ao corpo, que se encontra agora,
devido a uma culpa original, desterrada e encarcerada no corpo. De
natureza divina e imortal, a alma espiritual terá que purificar-se e
libertar-se do corpo. Nos primeiros diálogos de Platão o corpo aparece
como prisão da alma. Não só é preciso libertar-se do cárcere das paixões,
mas inclusive do conhecimento sensitivo, já que ambas coisas impedem
chegar à verdade autêntica. Somente quando a inteligência se separe do
corpo, poderá chegar à contemplação da verdade. A plenitude da existência
humana só poderá ser conseguida com a libertação do corpo, que se
verificará na morte, passando à condição de imortalidade, pela qual a
alma anela desde esta existência corpórea. Posteriormente,
com a imagem do barqueiro e da barca, Platão dará uma valorização mais
positiva ao corpo, embora continue sublinhando a primazia do espírito. Os
sentidos e as demais funções do corpo podem colaborar na realização do
homem, como barca que leva a alma, embora seja ela o barqueiro que guia a
barca. Corpo
e alma são, pois, para Platão duas realidades profundamente diversas,
mas de fato independentes. Sua preocupação consiste em acentuar que a
autêntica realização do homem deve ser buscada na existência
espiritual, que se liberta gradualmente do mundo e da matéria. Realização
não só intelectual, mas realização também no campo do amor. O autêntico
amor não se detém no corpo nem na esfera dos sentidos, mas se orienta
diretamente ao espírito da outra pessoa. Neste sentido é que se fala de
“amor platônico” ( Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. pp 31-33). Cf. As mais belas orações,
pp.55-57). O
dualismo platônico levou à infravalorização do corpo e a considerar
como pecaminosa toda sexualidade e à fuga do mundo que caracterizou
muitos séculos da história do ocidente
(cf. ibid. 33). A
visão dualista do homem na época moderna está sobretudo em Renato
Descartes. Emiliano Jimenez Hernandez assim se refere a Descartes: “Descartes
acentuará este dualismo, postulando a clara e radical divisão entre o
corpo e a consciência. O corpo humano, como qualquer outro corpo, se
explica sem sua alma, sobre a base mecânica dos átomos. No fundo não é
mais que uma realidade atômica, física, extensa. A alma, chamada geralmente consciência, embora esteja concreta e
ativamente ligada e unida com o corpo, é, na realidade, totalmente
diversa do corpo. É consciência pura, transparente a si mesma; é a
quinta-essência do homem. Observando que esta verdade “eu penso, logo existo” era firme e
segura, conheci que eu era uma substância cuja essência e natureza toda
é pensar, e que não necessita, para ser, de nenhum lugar, nem depende de
coisa alguma material; de sorte que este eu, isto é, a alma pela qual eu
sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e até mais fácil de
conhecer que este, e, embora o corpo não existisse, a alma não deixaria
de ser quanto ela é. A
certeza fundamental do homem, sua verdade primeira e indubitável é a
consciência que “pensa” o mundo e a existência do eu se impõe com
certeza indubitável no ato de pensar. Trata-se da interpretação
racionalista do homem” (op.cit. 33-34). A
visão racionalista do homem absolutiza a consciência que “pensa” o
mundo e minimaliza a densidade do mundo material e o valor do corpo. O
empirismo materialista absolutiza a importância do mundo material e do
corpo e minimaliza a densidade e a consistência da consciência. ... O eu
não seria outra coisa que um feixe de percepções que se seguem umas a
outras com grande velocidade, em eterno movimento (cf. Ibidem, 36-37). A
solução mista ou a interpretação aristotélico-tomista do homem Aristóteles
não aceita a interpretação monista-materialista, como também a
interpretação platônica do ser humano. Para ele, o homem não é um fenômeno
da matéria, nem é um espírito caído do céu e ligado temporariamente
ao corpo, mas é um ser concreto corporal-espiritual. Aristóteles parte
do ser humano concreto e procura compreendê-lo. Vê que o homem é um ser
corporal-espiritual uno. Tanto o corporal como o espiritual são
princípios essenciais do ser humano. O corpo não é o homem e nem o espírito
é o homem. Corpo e espírito são princípios constitutivos do ser
humano. Mas
como se distinguem? Em tudo o que nós vemos ou fazemos, há algo que é
determinado ou trabalhado e algo que determina. Para Aristóteles, todo
ser finito é composto de um elemento determinável (a matéria) e de um
elemento determinante (a forma). No caso do homem, o elemento determinável
é o corpo e o elemento determinante é a alma. Sua é a explicação
hilemórfica do ser finito: todo ser finito é composto de matéria e
forma. Ora todo ser humano é um ser finito. Também ele, portanto, consta
de matéria e forma. Matéria é seu corpo e forma é sua alma. Aristóteles
vê como a alma transcende o corpo, mas não tem condições de justificar
a imortalidade da alma e nem de afirmar que ela é criada por Deus, pois a
filosofia grega desconhece a idéia de criação. Tomás
de Aquino amplia a visão de Aristóteles afirmando a transcendência da
alma sobre o corpo e conseqüentemente a sua imortalidade. A alma não
pode proceder do material, mas é fruto do ato criador de Deus. A inteligência
humana, que transcende as dimensões da matéria, se radica na alma “que
é o ato do corpo físico orgânico” (De unit. Int.3: in Opusc.
philos. Torino 1954, n. 231). Mas,
se a filosofia grega desconhecia a revelação divina, ela esteve aberta
à mesma. Por isso, vejamos o que de novo a revelação divina traz à
reflexão do homem sobre o homem. II.
A VISÃO CRISTÃ OU SOBRENATURAL DO HOMEM O
ser humano pode ser visto também a partir do que Deus se dignou
dizer-lhe, ao longo da história, através dos seus profetas e sobretudo
através do seu próprio Filho eterno feito homem na plenitude dos tempos.
Assim como há um conhecimento de Deus baseado nas suas criaturas, assim
também há um conhecimento de Deus fundamentado em sua própria palavra
cujo ponto culminante é Jesus Cristo, o grande revelador de Deus e também
da grandeza e da dignidade do ser humano. O Deus dos cristãos, dos judeus
e dos muçulmanos é um Deus que fala e sua palavra é transmitida pela
voz e pela escrita. Cristãos, judeus e muçulmanos são monoteístas, isto é,
admitem um único Deus, e todos eles colocam no centro a palavra de Deus.
Os judeus se baseiam na Escritura do Antigo Testamento e os muçulmanos no
Alcorão, escrito por Maomé (571-632), o Profeta de Alá. Muitas partes
do Alcorão são tiradas do Antigo e também do Novo Testamento. Os cristãos
têm como seu livro sagrado a Bíblia, a coleção dos escritos inspirados
pelo Espírito de Deus, antes e depois de Cristo, isto é, os escritos dos
profetas, dos evangelistas e dos apóstolos. Para os cristãos é
sumamente importante esta afirmação da Sagrada Escritura: “Muitas
vezes e de muitos modos, falou Deus outrora aos nossos pais pelos
profetas; mas ultimamente falou-nos por seu Filho, que constituiu herdeiro
de tudo, por quem igualmente criou o mundo. Resplendor de sua glória e
figura da sua substância, este mantém igualmente o universo pelo poder
de sua palavra” (He 1,1-3a). Portanto, o nosso Deus falou
pelos profetas, mas sobretudo em seu Filho Jesus, Verbo eterno feito
homem. Jesus
Cristo é o Verbo, a Palavra de Deus ou o Deus feito palavra: “No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele
nada foi feito. Nele havia vida e a vida era a luz dos homens... Esta luz
era a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem... Ninguém
jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o
revelou” (Jo 1,1-18). Esta luz divina, que é Jesus Cristo, ilumina
o mundo e ilumina sobretudo a vida humana, quando o homem não tenta apagá-la
ou esquivar-se dela. Mas por que Deus quis falar ao homem ou fazer-se palavra? Vale
a ler um dos textos mais importantes do Vaticano II: “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria,
revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade
(cf.Ef.1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo
feito carne, e ao Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam
participantes da natureza divina (cf. Ef 1,18; 2 Ped 1,4). Mediante
esta revelação, portanto, o Deus invisível (cf. Col 1,15; 1Tm 1,17),
levado pelo seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex
33,11; Jo 15,14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão
consigo e nela os receber” (DV 2). |