IERP
DIOCESE DE CACHOEIRA DO SUL
PARÓQUIA SÃO JOSÉ

Em construção
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INSTITUTO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA E
PASTORAL |
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2009 Coordenação: Pe. Edson Pereira Mons. Elcy Arboitte Diác. Carlos Machado Prof. Lourdes Ache Ribeiro Nadia Suzél Araújo Menezes
Promoção: O Curso de Educação Religiosa, Catequética e Pastoral do Instituto de Educação Religiosa e Pastoral – IERP é organizado e mantido pela Diocese de Cachoeira do Sul e Paróquia São José. É um curso de extensão Universitária da Universidade Franciscana – UNIFRA de Santa Maria. Justificativa: Visa dar um aprofundamento mais qualificado e de uma forma sólida e sistemática de conteúdos teológicos e pastorais as lideranças comunitárias, catequistas, professores e as diversas coordenações das paróquias e comunidades. Objetivo Geral: Proporcionar uma atualização em assuntos teológicos/pastorais para agentes de pastoral educacional, catequistas e lideranças leigas para agirem com mais segurança em sua missão de anunciar e testemunhar a Palavra de Deus. Disciplinas e conteúdos:
Metodologia utilizada: Através de exposições orais de conteúdos sob orientação de um professor ministrante em aula, debates, estudos individuais e em grupos, vídeos, trabalhos extra-classe. Exigências: · Ter identidade cristã; · Realizar os trabalhos e o estágio; · Freqüência mínima de 75% · Engajamento comunitário. · Não é exigido grau de escolaridade. Investimentos: Cada participante contribuirá com o valor de R$ 130,00. O pagamento poderá ser parcelado durante a realização do curso em 6 (seis) parcelas de R$ 25,00, sendo uma delas no ato da matrícula. Certificado: Será fornecido o certificado de conclusão do curso pela Universidade Franciscana – UNIFRA aos alunos que obtiverem freqüência mínima de 75% e os trabalhos com conceitos de O – MB – B – R, com 220 horas. Período de inscrição: De 10 a 29 de fevereiro de 2008. Local: Secretaria das Paróquias de Cachoeira do Sul. Nº de vagas: 70 CARGA HORÁRIA: 270hs Local de funcionamento: Paróquia São José Período de realização do curso:
De 06 de março a 04 de dezembro de 2008
Horário de funcionamento do curso
Todas as Quintas-feiras das 19h às 22h 15 min
1º semestre de 2009
2º semestre de 2009
“Atenção”: Durante o ano haverá dois Simpósios de Teologia, um em cada semestre. O primeiro na área teológica (23 a 25 de junho) sobre Moral do Matrimônio e da Sexualidade e o segundo na área bíblica (22 a 24 de setembro) sobre a Teologia Paulina com a carga horária de 12hs cada.
Área Sul Caçapava do Sul Santana da Boa Vista
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A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA |
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Introdução 1. Este tema é muito importante e até necessário para todos nós.
Para nós, cristãos, a questão do homem e a questão de Jesus Cristo,
Filho de Deus feito homem, estão muito unidas e são as grandes questões
de hoje. Jesus Cristo é questionado até por povos de tradição cristã
e chega-se a vê-lo como uma ameaça mortal ou um estorvo para o homem de
hoje. Seria, pois, necessário negar a sua existência e ou defender-se de
qualquer influência sua na vida humana. Jesus Cristo é visto como grande
inimigo ou adversário do homem. Este
ódio a Cristo ou esta indiferença frente a Ele radica numa falsa imagem
do homem e numa falsa imagem de Deus. Se a exaltação ou o endeusamento
do homem exige a morte de Deus,
a morte de Deus leva à morte o próprio homem. Se Deus é ameaçado de
morte, na vida e na cultura humana atual, também o próprio homem é ameaçado
de desprezo e de morte. Parece
estranho, mas Deus está sendo visto como adversário mortal do homem, razão
por que, ao querer salvar e afirmar o homem, é preciso matar a Deus ou
cortar toda relação com Ele. Para que o super-homem viva é preciso
matar a Deus, gritou Nietzsche. Também para Nicolai Hartmann, grande filósofo
alemão, é preciso fazer uma opção entre Deus e o homem. A escolha de
Deus implica a morte do homem, e a escolha do homem implica a morte de
Deus. E ele preferiu escolher o homem e matar a Deus. Para Jean-Paul
Sartre, Deus não pode existir porque seria um ser contraditório, pois
deveria ser ao mesmo tempo ser e não ser, isto é, ser e nada. Mas, mesmo
confessando-se ateu, Sartre reconheceu que a vida humana, sem Deus, é uma
“paixão inútil”, porque a aspiração fundamental do homem é ser
Deus. O filósofo francês contemporâneo, Michel Onfray, escreveu uma
obra famosa e muito lida na Europa: “Tratado de Ateologia”, na
qual apresenta a negação de Deus como
condição fundamental para que o homem possa ser um ser livre,
pois, para ele, o homem só pode ser e viver como homem, quando Deus
desaparece e morre. Mas
se a morte ou a ausência total de Deus faz da vida uma paixão inútil, a
existência de Deus faz dela uma paixão sumamente útil: ela não seria
uma progressiva fuga de Deus, mas uma progressiva aproximação de Deus e
uma união com ele. Vale a pena recordar, aqui, a famosa frase de Santo
Agostinho, no início das suas Confissões: “Tu nos fizeste para
ti, Senhor, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em
ti”. Não
é difícil constatar que o progressivo afastamento de Deus e o crescente
endeusamento do homem e das suas obras – característica da época
moderna – mergulharam o homem contemporâneo na confusão e na insegurança,
na náusea e no desespero. Vale a pena ouvir o que alguns notáveis
pensadores dizem a este respeito: Gabriel
Marcel, filósofo existencialista francês, constata que o aumento
vertiginoso dos conhecimentos técnicos e científicos é acompanhado de uma
crescente incerteza a respeito do que constitui o ser profundo e último
do homem (cf. L´homme problématique, Paris 1955, 73-74). Max
Scheler(1874-1928), grande filósofo alemão da primeira metade do século
XX, diz: “Na história de mais de dez mil anos, nós somos a primeira
época em que o homem se converteu para si mesmo radical e universalmente
em um ser problemático: o homem já não sabe o que é e se dá conta de
que não o sabe” (citado por Emiliano Jimenez Hernandez. Quién soy
yo? Desclée De Brouwer, Bilbao 1990, pp.15-16). Martin
Heidegger, o filósofo existencialista alemão mais conhecido do século
XX, escreve: “Nenhuma época soube conquistar tantos e tão variados
conhecimentos a respeito do homem como a nossa... Contudo, nenhuma época
conhece tão pouco o homem como a nossa. Em nenhuma época o homem se
tornou tão problemático como na nossa” (citado ibid. p.16). X.
Zubiri, grande filósofo espanhol, escreve: “Quando o homem e a razão
creram que eles eram tudo, perderam-se a si mesmos; ficaram, de certo
modo, aniquilados. Deste modo, o homem do século XX se encontra ainda
mais sozinho; esta vez, sem mundo, sem Deus e sem si mesmo; singular condição
histórica” (cit. ibid., p. 16). G.
Hourdin, pensador francês, também escreve: “Que é o homem? Questão
banal, questão magnífica, questão eterna. Há milhões de anos que os
homens se agitam sobre a superfície do bosque, como mosquitos ao lado de
um tanque; e desde então milhares e milhões de homem e mulheres
puseram-se esta famosa questão. Fizeram-no incansavelmente, com a mesma
angústia, com a mesma insistência, com o mesmo sofrimento. Por que
nascemos à luz do dia? Por que amamos? Por que estamos destinados a
desaparecer? Por que nos devoramos mutuamente? Parece-me que através dos
caminhos da história, acima da diversidade de povos e raças, esta
interrogação do homem a respeito de si mesmo é o que domina e se ergue
sem trégua, sem descanso. Tudo o que dura, tudo o que une, as obras de
arte, como as religiões, tem por objeto oferecer um balbucio de resposta
a esta inquietante, a esta perpétua questão” (cit. ibid. p.17). Mas
apesar de tudo isto, também hoje o homem continua a perguntar-se a
respeito de si mesmo, de sua origem, de seu destino e do sentido de sua
vida. Coisa que nenhum ser animal é capaz de fazer. O nosso Millôr
Fernandes, na revista Veja do dia 8 de junho de 2005, p. 35,
publicou um breve artigo sobre “O significado da vida”, no qual
afirma: “Mais complexa do que a Vida, que todos temos e mais ou menos
sabemos o que é (ao contrário da morte), está a maior e mais angustiada
dúvida do ser humano: qual é o significado da Vida? Quando
perguntamos o significado da vida estamos, claro, centrados na vida
humana. O ser humano é o único animal que tem a frescura de querer
saber de onde vem, pra onde vai, o que é que é”. Frente
a todos estes questionamentos, a Igreja Católica considera seu dever, sua
missão, ajudar ao homem a encontrar respostas a essas suas profundas e
angustiantes perguntas. O Concílio Vaticano II reconhece que estas questões
próprias do homem são legítimas e esperam respectivas respostas: “Por
meio de religiões diversas procuram os homens uma resposta aos profundos
enigmas para a condição humana, que tanto ontem como hoje afligem
intimamente os espíritos dos homens, quais sejam: Que é o homem? Qual é
o sentido e fim de nossa vida? Que é bem e que é pecado? Qual a origem
dos sofrimentos e qual a sua finalidade? Qual o caminho para obter a
verdadeira felicidade? Que é a morte, o julgamento e retribuição após
a morte? E, finalmente, que é aquele supremo e inefável mistério que
envolve nossa existência, donde nos originamos e para o qual
caminhamos?” (Nostra
aetate,1; cf. GS 10). No
Vaticano II, a Igreja Católica quis oferecer o seu pensamento sobre o ser
humano, sobre o sentido da sua vida, sobre a significação última da sua
atividade (cf. Gaudium et Spes, 11ss). 2.
Qual deve ser a nossa resposta cristã a tantas questões relacionadas
com o homem e também com cada um de nós? É
claro que não podemos admitir Deus como um inimigo mortal do homem ou uma
séria ameaça para a sua liberdade. Também não podemos admitir que o
homem só é verdadeiramente homem, quando Deus deixa de existir para ele.
Nós cremos e sustentamos que Deus é o máximo amigo do homem e
que o ser humano se realiza de verdade e é feliz, quando entra e
permanece para sempre em comunhão com Deus (cf. Jo c.15). Esta
nossa convicção cristã fundamenta-se numa visão cristã do homem, isto
é, no conhecimento natural do homem, mas amplamente enriquecido com o
conhecimento que Deus mesmo nos oferece através da sua revelação. O
conhecimento, que Deus nos comunica a respeito de si mesmo e das suas
criaturas, não anula e nem limita o nosso conhecimento natural do mundo e
do homem. Ao contrário, ele o amplia e o enriquece. Tentemos, pois, ver a
grandeza e a dignidade do ser humano, valendo-nos da nossa razão mas também
da revelação divina. 3.
Divisão do nosso trabalho Para falarmos da dignidade da pessoa humana, devemos saber o
que é a pessoa humana, pois a sua dignidade deve ter um fundamento. Não
podemos falar da dignidade da pessoa humana sem saber o que ela é. A
dignidade da pessoa humana foi destacada sobretudo pelo Cristianismo que
ressaltou sua originalidade, sua riqueza e, portanto, também a sua
dignidade. Facilmente podemos constatar que, na reflexão sobre o ser
humano, quando diminui a influência do pensamento e do amor cristão,
diminui também o respeito pela dignidade da pessoa humana. Nós
podemos ver o ser humano a partir do próprio ser humano, mas podemos vê-lo
também a partir do que Deus revelou a respeito dele. Vejamos, pois,
primeiramente, o homem a partir do próprio homem, depois, a partir da
revelação divina, e, por fim, veremos sua singular dignidade.
I.
A
VISÃO NATURAL DO SER HUMANO: o ser humano visto a partir da natureza e
dos meios naturais
O ser humano deseja conhecer-se, quer saber quem ele é. Se ele quer
conhecer o mundo, quer também conhecer-se a si mesmo como também suas
relações com o mundo. Conhece, por primeiro, realidades do mundo, mas,
pouco a pouco, ele se volta para si mesmo e
se compara com as outras realidades do mundo. E, ao fazer isto,
descobre o que tem de comum com elas e o que tem de próprio. Este seu
querer conhecer-se acompanha-o toda a vida. Assim, pouco a pouco, o homem
vai conhecendo a sua rica e complexa realidade. Vê seu parentesco com o
mundo, pois, no seu ser, descobre o
ser mineral, o ser vegetal, o ser animal e também o ser espiritual. O
seu ser mineral revela-se
no seu tamanho e no seu peso, na sua ocupação de espaço e na
possibilidade de ser tocado por tudo o que o circunda. Como ser
material, ele pode ser atingido, medido, ferido e até destruído
por outros seres. Mas
logo vê que ele é um ser material especial. Ele é um ser vivo
junto com plantas e animais. O ser vivo tem a capacidade de
alimentar-se, de desenvolver-se, de reproduzir-se e também de cessar de
viver ou de morrer. Mas
ele vê que é um ser vivo especial,
muito mais que uma planta. Como o animal, ele pode sentir as qualidades
das realidades, as suas cores, os seus cheiros, os seus movimentos, o seu
sabor. Como o animal, também o homem tem sentimentos e emoções, desejos
e medos, alegrias e tristezas. Como o ser animal também o homem tem também
a capacidade de migrar, isto é, de trocar de lugar, o que não faz a
planta porque está enraizada e encravada no seu meio ambiente. Graças
aos seus meios naturais e aos meios criados por ele mesmo, o ser humano é
o ser que mais se locomove ou migra no mundo. Mas
apesar de muitas semelhanças suas com o animal, o ser humano é muito
mais que um animal. Nenhuma pessoa fica satisfeita, quando é chamada
de animal. Ela não nega sua dimensão animal, mas tem clara consciência
de que é um animal muito especial, porque participante do ser espiritual.
Espiritualidade é o que carateriza o modo de ser especial e tipico do ser
humano. A
espiritualidade do homem manifesta-se na sua capacidade de entender, de
ter sentimentos motivados por valores que ultrapassam o material e o sensível,
na sua capacidade de fazer sempre coisas novas, de questionar-se sobre o
sentido da vida, o sentido do trabalho, o sentido da morte e também sobre
a existência de Deus e a sua ligação com ele. A
espiritualidade do homem manifesta-se também na sua capacidade de
relacionar-se ou de ligar-se.
Ele é o ser que mais relações pode ter. Todo ser vivo tem a capacidade
de ligar-se, mas, comparado com a planta e com o animal, o homem tem maior
número de relações: ele relaciona-se com as coisas materiais, com os
seus semelhantes, com os grupos humanos e com toda a humanidade, com o
tempo presente, passado e futuro, com o lugar, isto é, com o que está
aqui, ali, acolá; consigo mesmo e por fim com o próprio Ser absoluto. Toda
esta rica capacidade que o homem tem de ligar-se não se baseia no seu ser
mineral, vegetal e animal, mas no seu ser espiritual. Vejamos um pouco
mais de perto esta dimensão espiritual própria do ser humano. A
sua inteligência vai muito além daquela do animal. Se queremos despertar o interesse do animal, temos que valer-nos de
algo sensível, de algo que toque os seus sentidos e os seus instintos.
Perdemos tempo querer interessá-lo pela beleza de um quadro ou de uma
paisagem, pelo programa de um partido, pela Campanha da Fraternidade, pela
evangelização, pela salvação do mundo, por Deus, por uma vida boa mais
justa e mais fraterna e mais cristã. É inútil querer interessá-lo pela
vida futura, pelo sentido da vida, pela malícia do pecado ou pela misericórdia
de Deus. Perdemos tempo querer convencê-lo de que também ele está
chamado a lutar contra a corrupção e a trabalhar por um mundo mais
humano e mais justo. Também
o animal busca muitas coisas, mas o querer humano vai muito além da
busca do animal. O homem pode querer a sabedoria, a justiça, a
beleza, a bondade. Pode querer lutar por um mundo melhor, mais justo,
por um comportamento ético transparente, por uma vida religiosa
melhor, por uma sociedade melhor. O
animal não tem domínio dos seus atos, pois é dominado pelos seus
impulsos ou instintos.
Não adianta querer convencer um cachorro gordo de que ele deve jejuar
para perder uns quilos e tornar-se mais elegante. O animal não responde
pelos seus atos, ao passo que o ser humano pode e deve sempre responder
pelos seus atos, visto que ele tem domínio sobre os mesmos. O
homem é um ser livre porque é um ser inteligente e compreende o sentido
e o valor dos seus atos. Eles dependem dele, razão por que deve também
responder por eles, pela sua bondade ou pela sua maldade. Outro
grande sinal da espiritualidade humana é a oração. O ser humano é capaz de orar porque pode descobrir
sua ligação com Deus e pode cultivar e expressar esta sua relação com
palavras e com gestos e com ofertas, ora agradecendo, ora pedindo perdão,
ora pedindo ajuda. O animal desconhece a religião e a oração. Max
Scheler diz que “a religião é a mais radical de todas as disposições
e capacidades do ser humano” (Em: As mais belas orações de
todos os tempos. Seleção e tradução de Rose Marie Muraroe Frei
Raimundo Cintra, Rio de Janeiro,Editora Rosa dos Ventos,1994, 9ª edição,
p. XV). Max
Müller, o pioneiro da História Comparada das Religiões, diz que “a
religião se afirma, em toda parte, como
o fato principal e o mais influente na vida dos indivíduos, das
famílias, das nações” (Em: Ibidem, p.XV). Para
Louis Bouyer, “a religião é um fenômeno plenamente
humano, irredutível aos outros aspectos da psicologia humana. Longe de
ser um fator secundário dentro das demais atitudes psíquicas, ela se
apresenta como o mais primitivo e fundamental da alma humana”
(ibidem, p. XVII). Porque
é um ser inteligente, o homem é um ser que está em busca de Deus. Na sua introdução ao livro já citado – As
mais belas orações de todos os tempos – Frei Raimundo Cintra
escreve: “Sob qualquer hierofania, por mais inferior e distorcida que seja, o
que o homem procura é a verdadeira face de Deus. Como o leitor poderá
ver no decorrer de todo este livro, desde a idade da pedra até o século
XX, o tema central das mais belas orações ou meditações, sob todos os
nomes que se lhes dêem, é o Criador, Origem e Harmonia do Universo,
Solução final de todos os problemas, Pai cheio de bondade e amor, Fonte
de misericórdia e de perdão. ....
Outros caminhos, desde sempre, levaram o homem a Deus: a busca do Amor, da
Verdade e da Beleza. Na procura angustiada dos valores essenciais à sua
vida, o homem é levado a ultrapassar as formas fragmentárias e perecíveis
com que eles se apresentam. O homem busca, então, avidamente, a
Verdade inteira, a Beleza sem defeito, a Pureza total, a Perfeição
absoluta” (Ibid. p. XVII). Religião
e oração estão intimamente unidas. Ao falar da oração, F. Heiler diz
que “a oração é o fenômeno central de toda religião, bem como
o sinal distintivo da religiosidade pessoal” (ibid. p. XV). A
religião e a oração são fenômenos tipicamente humanos universais. Assim conclui a introdução do citado livro “As
mais belas orações de todos os tempos”: “Em
todos os tempos e em todos os cantos da Terra, os homens se curvaram
diante de algo maior que eles mesmos. A ciência progredirá
ilimitadamente. Mas, jamais, enquanto houver um só homem sobre a Terra,
deixará de viver em seu coração, nítido e global, o conhecimento de
que o mistério do Universo o ultrapassa infinitamente. E é à harmonia
que mantém existindo esse Universo, que ele, o último homem sobre a
Terra, dirigirá a sua admiração, o seu sentimento de dependência, a
sua oração”
(ibid. XIX). Graças
aos seus sentidos e à sua inteligência, o ser humano tem consciência de
sua originalidade entre todos os demais seres do mundo: um ser material
vivo sensitivo inteligente capaz de amar e de fazer o que nenhum animal é
capaz de fazer. Se ele não duvida da sua corporeidade e
materialidade, muito difícil é também que ele duvide da sua
espiritualidade, da dimensão que supera a dimensão material. Sem o
corpo, não seria homem, mas também não seria homem, sem o espírito. Mas
como estas duas dimensões fazem um eu, um indivíduo que existe, que
vive, que sente e que diz eu e responde pelos seus atos? Que união existe
entre o princípio corporal e o princípio espiritual? A união do
corporal e do espiritual no indivíduo humano é um dos problemas humanos
mais difíceis de compreender e de explicar. A relação da alma e do
corpo é uma questão eterna para o homem e, ao longo da história, foram
dadas muitas explicações que podem ser concentradas em três: a monista,
a dualista e a aristotélico-tomista. A
monista aparece no materialismo e no idealismo O
materialismo
afirma que tudo é matéria e produto ou expressão da matéria. Tudo é
material, tudo provém da matéria e tudo se reduz à matéria. Também o
ser humano é um ser puramente material. Tudo o que há no homem e na vida
humana provém da matéria. Também sua alma reduz-se a puros fenômenos
psíquicos, os quais se reduzem ao mecanismo dos fenômenos fisiológicos
do sistema nervoso. Tudo o que há no homem é experimentalmente cognoscível
e controlável. O homem é uma máquina especial, mas sempre máquina. Esta
visão materialista do homem apareceu na antiguidade e na época moderna e
continua presente também na época contemporânea: o homem é um
amontoado de átomos, uma máquina
composta de muitos aparelhos e peças, uma concretização ou expressão
da matéria. O próprio pensamento humano se explica pelo seu sistema
nervoso e seu funcionamento reduz-se a elementos químicos. Portanto, a
vida psíquica do homem é um fenômeno ou manifestação da matéria. Na
interpretação materialista do homem, “todas as expressões humanas
não são outra coisa que extensões da matéria: os fenômenos da consciência
não são mais que reflexos interiores de processos corpóreos e fisiológicos”
(Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. 35). Mas
esta visão monista-materialista do ser humano não consegue explicar
mecanicamente o fato da consciência humana, a sua capacidade de sentir,
de refletir, de representar. Já Thomas Hobbes dizia: “De todos os
fenômenos que são ou estão vizinhos a nós, o mais admirável é que
alguns corpos naturais têm em si os modelos de todas as coisas e outros não”
(De corpore I,389). Por que não admitir que toda a natureza está
dotada de consciência, isto é, o panpsiquismo? (Cf. Dizionario
delle´Idee, uomo, p. 1229-1230). Outra
interpretação monista do homem é dada pelo idealismo que faz do
corpo uma manifestação fenomênica do espírito. Mas também esta
posição é muito fraca, pois como compreender e explicar a dimensão empírica
do homem (que ele é este, aquele, que está aqui), os seus limites, as
suas imperfeições que a experiência de cada dia nos apresenta com inegável
precisão? Além disso, a dimensão corporal pode facilitar, dificultar e
até bloquear a atividade do espírito (cf. ibidem, p. 1230). A
interpretação dualística do ser humano vem da filosofia grega e também
da filosofia racionalista moderna:
o homem é composto de duas realidades diferentes e completas, isto é,
alma e corpo. Famosa
é a visão platônica do ser humano: “A interpretação platônica é claramente dualística: corpo e alma
são duas realidades unidas exteriormente somente durante a existência
humana. Este dualismo funda suas raízes nas doutrinas religiosas do
orfismo sobre a preexistência , a queda e a emigração da alma. A alma
é uma planta celestial, preexistente ao corpo, que se encontra agora,
devido a uma culpa original, desterrada e encarcerada no corpo. De
natureza divina e imortal, a alma espiritual terá que purificar-se e
libertar-se do corpo. Nos primeiros diálogos de Platão o corpo aparece
como prisão da alma. Não só é preciso libertar-se do cárcere das paixões,
mas inclusive do conhecimento sensitivo, já que ambas coisas impedem
chegar à verdade autêntica. Somente quando a inteligência se separe do
corpo, poderá chegar à contemplação da verdade. A plenitude da existência
humana só poderá ser conseguida com a libertação do corpo, que se
verificará na morte, passando à condição de imortalidade, pela qual a
alma anela desde esta existência corpórea. Posteriormente,
com a imagem do barqueiro e da barca, Platão dará uma valorização mais
positiva ao corpo, embora continue sublinhando a primazia do espírito. Os
sentidos e as demais funções do corpo podem colaborar na realização do
homem, como barca que leva a alma, embora seja ela o barqueiro que guia a
barca. Corpo
e alma são, pois, para Platão duas realidades profundamente diversas,
mas de fato independentes. Sua preocupação consiste em acentuar que a
autêntica realização do homem deve ser buscada na existência
espiritual, que se liberta gradualmente do mundo e da matéria. Realização
não só intelectual, mas realização também no campo do amor. O autêntico
amor não se detém no corpo nem na esfera dos sentidos, mas se orienta
diretamente ao espírito da outra pessoa. Neste sentido é que se fala de
“amor platônico” ( Emiliano Jimenez Hernandez, op. cit. pp 31-33). Cf. As mais belas orações,
pp.55-57). O
dualismo platônico levou à infravalorização do corpo e a considerar
como pecaminosa toda sexualidade e à fuga do mundo que caracterizou
muitos séculos da história do ocidente
(cf. ibid. 33). A
visão dualista do homem na época moderna está sobretudo em Renato
Descartes. Emiliano Jimenez Hernandez assim se refere a Descartes: “Descartes
acentuará este dualismo, postulando a clara e radical divisão entre o
corpo e a consciência. O corpo humano, como qualquer outro corpo, se
explica sem sua alma, sobre a base mecânica dos átomos. No fundo não é
mais que uma realidade atômica, física, extensa. A alma, chamada geralmente consciência, embora esteja concreta e
ativamente ligada e unida com o corpo, é, na realidade, totalmente
diversa do corpo. É consciência pura, transparente a si mesma; é a
quinta-essência do homem. Observando que esta verdade “eu penso, logo existo” era firme e
segura, conheci que eu era uma substância cuja essência e natureza toda
é pensar, e que não necessita, para ser, de nenhum lugar, nem depende de
coisa alguma material; de sorte que este eu, isto é, a alma pela qual eu
sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e até mais fácil de
conhecer que este, e, embora o corpo não existisse, a alma não deixaria
de ser quanto ela é. A
certeza fundamental do homem, sua verdade primeira e indubitável é a
consciência que “pensa” o mundo e a existência do eu se impõe com
certeza indubitável no ato de pensar. Trata-se da interpretação
racionalista do homem” (op.cit. 33-34). A
visão racionalista do homem absolutiza a consciência que “pensa” o
mundo e minimaliza a densidade do mundo material e o valor do corpo. O
empirismo materialista absolutiza a importância do mundo material e do
corpo e minimaliza a densidade e a consistência da consciência. ... O eu
não seria outra coisa que um feixe de percepções que se seguem umas a
outras com grande velocidade, em eterno movimento (cf. Ibidem, 36-37). A
solução mista ou a interpretação aristotélico-tomista do homem Aristóteles
não aceita a interpretação monista-materialista, como também a
interpretação platônica do ser humano. Para ele, o homem não é um fenômeno
da matéria, nem é um espírito caído do céu e ligado temporariamente
ao corpo, mas é um ser concreto corporal-espiritual. Aristóteles parte
do ser humano concreto e procura compreendê-lo. Vê que o homem é um ser
corporal-espiritual uno. Tanto o corporal como o espiritual são
princípios essenciais do ser humano. O corpo não é o homem e nem o espírito
é o homem. Corpo e espírito são princípios constitutivos do ser
humano. Mas
como se distinguem? Em tudo o que nós vemos ou fazemos, há algo que é
determinado ou trabalhado e algo que determina. Para Aristóteles, todo
ser finito é composto de um elemento determinável (a matéria) e de um
elemento determinante (a forma). No caso do homem, o elemento determinável
é o corpo e o elemento determinante é a alma. Sua é a explicação
hilemórfica do ser finito: todo ser finito é composto de matéria e
forma. Ora todo ser humano é um ser finito. Também ele, portanto, consta
de matéria e forma. Matéria é seu corpo e forma é sua alma. Aristóteles
vê como a alma transcende o corpo, mas não tem condições de justificar
a imortalidade da alma e nem de afirmar que ela é criada por Deus, pois a
filosofia grega desconhece a idéia de criação. Tomás
de Aquino amplia a visão de Aristóteles afirmando a transcendência da
alma sobre o corpo e conseqüentemente a sua imortalidade. A alma não
pode proceder do material, mas é fruto do ato criador de Deus. A inteligência
humana, que transcende as dimensões da matéria, se radica na alma “que
é o ato do corpo físico orgânico” (De unit. Int.3: in Opusc.
philos. Torino 1954, n. 231). Mas,
se a filosofia grega desconhecia a revelação divina, ela esteve aberta
à mesma. Por isso, vejamos o que de novo a revelação divina traz à
reflexão do homem sobre o homem. II.
A VISÃO CRISTÃ OU SOBRENATURAL DO HOMEM O
ser humano pode ser visto também a partir do que Deus se dignou
dizer-lhe, ao longo da história, através dos seus profetas e sobretudo
através do seu próprio Filho eterno feito homem na plenitude dos tempos.
Assim como há um conhecimento de Deus baseado nas suas criaturas, assim
também há um conhecimento de Deus fundamentado em sua própria palavra
cujo ponto culminante é Jesus Cristo, o grande revelador de Deus e também
da grandeza e da dignidade do ser humano. O Deus dos cristãos, dos judeus
e dos muçulmanos é um Deus que fala e sua palavra é transmitida pela
voz e pela escrita. Cristãos, judeus e muçulmanos são monoteístas, isto é,
admitem um único Deus, e todos eles colocam no centro a palavra de Deus.
Os judeus se baseiam na Escritura do Antigo Testamento e os muçulmanos no
Alcorão, escrito por Maomé (571-632), o Profeta de Alá. Muitas partes
do Alcorão são tiradas do Antigo e também do Novo Testamento. Os cristãos
têm como seu livro sagrado a Bíblia, a coleção dos escritos inspirados
pelo Espírito de Deus, antes e depois de Cristo, isto é, os escritos dos
profetas, dos evangelistas e dos apóstolos. Para os cristãos é
sumamente importante esta afirmação da Sagrada Escritura: “Muitas
vezes e de muitos modos, falou Deus outrora aos nossos pais pelos
profetas; mas ultimamente falou-nos por seu Filho, que constituiu herdeiro
de tudo, por quem igualmente criou o mundo. Resplendor de sua glória e
figura da sua substância, este mantém igualmente o universo pelo poder
de sua palavra” (He 1,1-3a). Portanto, o nosso Deus falou
pelos profetas, mas sobretudo em seu Filho Jesus, Verbo eterno feito
homem. Jesus
Cristo é o Verbo, a Palavra de Deus ou o Deus feito palavra: “No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele
nada foi feito. Nele havia vida e a vida era a luz dos homens... Esta luz
era a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem... Ninguém
jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o
revelou” (Jo 1,1-18). Esta luz divina, que é Jesus Cristo, ilumina
o mundo e ilumina sobretudo a vida humana, quando o homem não tenta apagá-la
ou esquivar-se dela. Mas por que Deus quis falar ao homem ou fazer-se palavra? Vale
a ler um dos textos mais importantes do Vaticano II: “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria,
revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade
(cf.Ef.1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo
feito carne, e ao Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam
participantes da natureza divina (cf. Ef 1,18; 2 Ped 1,4). Mediante
esta revelação, portanto, o Deus invisível (cf. Col 1,15; 1Tm 1,17),
levado pelo seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex
33,11; Jo 15,14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão
consigo e nela os receber” (DV 2). A
palavra de Deus dirigida ao ser humano nasce, portanto, do seu amor para
com ele. Movido pelo seu amor, Deus tomou a iniciativa de falar-lhe com o
fim de ajudá-lo a tomar consciência de sua identidade, de sua vocação,
de seu destino e também do caminho seguro para atingi-lo e ser feliz. A
palavra de Deus é sempre palavra de salvação, pois é dirigida ao homem
que é sempre carente de salvação, de libertação e de regeneração. A
reflexão humana como tal apresenta o homem sofredor e que está à
procura de salvação e de libertação e felicidade. A humanidade está
à procura de alguém que o livre do sofrimento e da morte. João Paulo II
diz que as outras religiões, que desconhecem Jesus Cristo, exprimem, “desde
o início, a busca de Deus por parte do homem” (TMA art. 6).
Também São Paulo, ao falar aos atenienses, diz que essa busca de Deus é
feita como que “às apalpadelas” (cf. At 17,27). Por isso, no
pensar humano natural, Deus está no fim de uma nada fácil caminhada. Mas
no Cristianismo Deus está no começo da caminhada humana e apresenta-se
como aquele que está à procura do homem. Não só lhe promete a salvação
mas também a realiza. Esta busca do homem da parte de Deus atinge o seu
ponto máximo em Jesus Cristo. Jesus Cristo é o próprio Deus que fala ao
homem, convida-o a entrar em comunhão com ele
e também o acolhe. Há uma página belíssima de João Paulo II.
Ao falar da Encarnação do Filho de Deus, ele escreve: “Tocamos,
aqui, o ponto essencial onde o Cristianismo se diferencia das outras
religiões, nas quais se foi exprimindo, desde o início, a busca
de Deus por parte do homem. No Cristianismo, o ponto de partida está
na Encarnação do Verbo. Aqui, não é apenas o homem a procurar Deus,
mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o
caminho, por onde é possível atingi-lO... O
Verbo encarnado é, por conseguinte, o cumprimento do anélito presente em
todas as religiões da humanidade... Em Cristo, a religião deixa de ser um “procurar Deus como que
às apalpadelas” (cf. At 17,27), para se tornar resposta de fé a Deus que se
revela: resposta na qual o homem fala a Deus como seu Criador e Pai;
resposta feita possível por aquele Homem único, que ao mesmo tempo é o
Verbo consubstancial ao Pai, no qual Deus fala a cada homem, e cada homem
se torna capaz de responder a Deus. Mais ainda, nesse Homem responde a
Deus a criação inteira. Jesus Cristo é o novo início de tudo: tudo n´Ele
se reencontra, é acolhido e reconduzido ao Criador de Quem teve origem.
Deste modo, Cristo é o cumprimento do anélito de todas as religiões do
mundo, constituindo por isso mesmo o seu único e definitivo ponto de
chegada. Se por um lado Deus em Cristo fala de si à humanidade, por
outro, no mesmo Cristo, a humanidade inteira e toda a criação falam de
si a Deus – melhor, dão-se a Deus. Assim tudo volta ao seu princípio”
(TMA art.6). “Em
Jesus Cristo,
Deus não só fala ao homem, mas procura-o. A Encarnação do Filho
de Deus testemunha que Deus procura o homem. Jesus fala desta busca como
sendo a recuperação da ovelha tresmalhada
(cf. Lc 15,1-7). É uma busca que nasce no íntimo de Deus e tem o
seu ponto culminante na Encarnação do Verbo. Se Deus vai à procura do
homem, criado à sua imagem e semelhança, é porque o ama eternamente no
Verbo, e em Cristo quis elevá-lo à dignidade de filho adotivo...
Deus procura o homem, impelido pelo seu coração de Pai. Por
que é que o busca? Porque o homem se afastou d´Ele, escondendo-se
como Adão entre as árvores do paraíso terreal (cf. Gn 3,8-10). O
homem deixou-se transviar pelo inimigo de Deus” (ibid., art.7). O Deus, que se revelou, apresenta-se como o Deus que, movido
pelo seu amor misericordioso, procura o homem, a fim de salvá-lo, ajudá-lo
e renová-lo. Como se mostra esta ajuda de salvação de Deus ao homem
carente de salvação? Na sua palavra e na sua graça ou no seu Espírito.
Mas o que Deus revela ao homem a respeito do próprio homem? O que Deus
diz do homem e da sua vocação? De
um modo geral, Deus se revela ao homem não como uma ameaça ou um inimigo
ou um obstáculo a ser superado. Vejamos como Deus responde às maiores e
mais inquietantes perguntas humanas: donde veio, para onde vai, e quem é
ele. 1.
Deus é a origem primeira do homem Deus
revela-se como o Criador do mundo e especialmente do próprio homem. Deus
é o Criador e o conservador providente do mundo e de todas as suas
criaturas, em especial da criatura humana. Movido pelo seu amor e bondade,
Deus quis expressar-se em suas criaturas. O mundo e todas as suas
criaturas não são obra do acaso e nem fruto de uma gigantesca explosão
cósmica (Big Bang), mas obra da inteligência e da vontade amorosa
de Deus. Os dois primeiros capítulos da Sagrada Escritura mostram-nos o
Deus criador do universo, no meio do qual Deus colocou o ser humano, homem
e mulher, criados à sua imagem e semelhança (cf Gn 1,26-27). O
homem é imagem e semelhança de Deus graças à sua inteligência, à sua
vontade e ao seu coração e também às suas mãos. E ao contemplar a sua
obra, o grande Artista, Deus, sentiu grande satisfação ao ver que tudo
era muito bem feito e bonito (cf. Gn 1,31). A
palavra de Deus faz ver a grande afinidade do ser humano com toda a criação
e também com o Criador. Ele tem afinidade ou parentesco com todas as
criaturas, mas também com o próprio Criador. Esta afinidade com o
Criador atinge o seu ponto máximo em Jesus Cristo que, através do seu
Espírito, faz de nós filhos de Deus e também pequenos irmãos seus (cf.
Rm 8,29). Portanto,
o ponto de partida da pessoa humana é o Deus Uno e Trino: as pessoas
divinas. Longe de ser obra do acaso, o homem é criatura e filho de Deus.
Fruto do Deus sumamente feliz, mas desejoso de partilhar sua felicidade
com o ser humano. No início da existência humana, estão um querer
divino e um querer humano, razão por que a palavra ‘querido’
‘querida’ é a palavra mais bonita que nós podemos ouvir de nossos
pais e de nosso Deus. Em Jesus Cristo, nosso Salvador e Irmão Maior, o
Pai do céu nos chama seus filhos muito amados e queridos. 2.
Como imagem e semelhança de Deus e sobretudo como filho de Deus, o ser
humana é o ser mais querido de Deus e é o alvo das suas maiores atenções
e cuidados Se o Pai do céu cuida bem das criaturas inferiores ao homem,
das flores dos campos e dos passarinhos, muito mais ainda cuida dos seus
filhos, suas criaturas mais queridas. Ao notar que os homens se
preocupavam muito com a vida, com a comida e com a roupa, Jesus Cristo em
nome do Pai lhes diz: “Não
vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo,
como vos vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não
é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: Não semeiam nem ceifam, nem
recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós
muito mais que elas? .... E por que vos inquietais com as vossas vestes?
Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham e nem fiam.
Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não
se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje
cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de
pouca fé!” (Mt
6,25-30). Portanto,
o ser humano partiu de Deus, que é Amor, e vive envolto no amor e é
tocado pelo amor. Deus quer viver em crescente comunhão com o homem e
espera que o homem, por sua vez, aceite e queira estar em comunhão com
ele e crescer na comunhão que é fonte de felicidade para o homem e também
para o próprio Deus. A felicidade do filho é também a felicidade do pai
e da mãe, como também o sofrimento do filho é causa de sofrimento para
a mãe e para o pai. 3.
Ao falar ao homem, Deus revelou-lhe a causa do sofrimento e da morte A questão mais inquietante para a humanidade é a presença
do mal e do sofrimento nas pessoas e na história. Algumas religiões
afirmam que o sofrimento do ser humano é devido a uma culpa original do
espírito. Para expiar a sua culpa, ele foi unido a um corpo e este
estar unido a um corpo é um sofrimento reparador e sanador. O espírito
refaz várias vezes a sua união sofrida com o corpo, até atingir a
libertação plena de toda culpa, libertação esta que envolve a libertação
total do espírito de todos os limites e peso do corpo. Muitos
crêem que a causa do sofrimento humano está nas estruturas sociais e
econômicas ou na indomável competição humana. Por isso, a mudança
até violenta das estruturas é condição para uma vida humana nova e
sem sofrimento. Outros
dizem que a causa de todo sofrimento humano radica nos próprios
desejos humanos. Dominado pelos seus desejos e impulsos, o homem luta
para satisfazê-los, e todo esforço para satisfazer desejos produz
sofrimento. Por isso a felicidade humana exige o domínio total de todos
os impulsos e desejos. É o que tenta fazer o homem budista. Outros dizem que o ser humano, embora marcado pelo
sofrimento, dispõe de forças capazes de libertá-lo do sofrimento e de
fazê-lo feliz. Esta é a doutrina da Nova Era. Esta afirma que o
sofrimento radica na ignorância humana, isto é, no desconhecimento do
poder infinito da mente humana que é capaz de resolver todos os conflitos
e tornar-se feliz como o Infinito. Mas
Deus revelou ao homem a causa do seu sofrimento e da sua vida infeliz e
mortal. Sofrimento e morte não são imposições de Deus e nem de
outros, mas conseqüências do mau uso ou do abuso da liberdade humana. Em
vez de manter-se em comunhão
com Deus, o ser humano optou por separar-se de Deus, crendo que, ao fazer
isto, ele mesmo seria Deus. Deus não quis a separação do homem e nem o
demônio a causou, embora a tenha insinuado e sugerido. A separação, o
pecado, é um ato humano, um ato livre e, portanto, alvo também de
castigo, por ser um ato mau. Ao
romper sua aliança com Deus e ao separar-se dele, o homem
feriu-se a si mesmo, machucou-se, extraviou-se e perdeu-se. E tudo
isto por própria culpa. O
rompimento da sua união com Deus teve também como conseqüência o
rompimento da sua união com o outro (a), com a natureza e consigo mesmo.
O pecado é sempre uma falta de amor, pouco importa que seja pequena ou
grande. E as conseqüências do pecado para o
homem são sempre a vergonha, o medo, o remorso, o desespero (cf.
Gn 3,1-13). Deus revelou ao homem que a origem do mal está nele mesmo
que, livremente, rompeu a sua aliança com Ele e, conseqüentemente, também
com o outro, com a natureza e consigo mesmo. Por isso, a imagem do homem,
revelada por Deus, é a de um ser bom, mas que não quis continuar a ser
bom e feriu-se mortalmente a si mesmo, ao outro e a própria natureza que
por isso aguarda ansiosamente a sua libertação (cf. Rm 8,19-22). 4.
Deus revelou-se como o
salvador, o libertador, o sanador do homem ferido Deus
quer reconduzir o pecador à comunhão com ele e com os irmãos e irmãs e
com a própria natureza e consigo mesmo. Deus não abandona quem o
abandonou, mas vai à sua procura e promete-lhe a salvação, ainda que não
sem sofrimento e morte. Deus é para o homem pecador como o bom pastor que
vai à procura da ovelha perdida (Lc 15,3-7), como o pai que corre ao
encontro do filho que retorna à casa, abraça-o, beija-o e reveste-o de
roupa nova e celebra grande festa pelo seu retorno; como o bom samaritano
que, movido de compaixão, cura
o homem ferido (Lc 10,25ss). Deus quer salvar quem está perdido (Lc
19,1-10), salvar os pecadores (Mt 9,12ss), reunir todos os dispersos assim
como a galinha une os seus pintinhos sob as suas asas maternas (Mt
23,37ss; Lc 13,34ss). A
revelação do Antigo Testamento mostra-nos Deus salvador do seu povo,
desejoso de fazer aliança com ele e de abençoá-lo mais que todos os
outros povos (cf. Ex cc3ss). Mesmo quando o povo é infiel, Deus continua
sempre fiel e promete inclusive uma nova aliança (cf.Jer.31,31ss), a
renovação e a transformação da mente e do coração (Ez
36,24-28)). A
grande revelação do Novo Testamento é Jesus Cristo Salvador. O próprio
nome Jesus significa aquele que salva o seu povo dos seus pecados (cf. Mt
1,21). Como expressão da máxima misericórdia do Pai, foi enviado pelo
Pai ao mundo não para julgar o mundo mas para salvar o mundo (cf Jo
3,16-17). E Cristo tem plena consciência de sua missão de salvador e
ressuscitador do homem pecador (cf. Jo 6,38-40). Dá sua vida para que
todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). Sua grande preocupação
é reunir os dispersos, perdoar os pecadores, curar os doentes, procurar a
ovelha perdida, cuidar do homem ferido e levar todos à casa do Pai.
Portanto, Deus é o máximo amigo e benfeitor do homem e nunca o seu
adversário. O próprio Jesus Cristo confessou: “Ninguém tem
maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos... Já não
vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,14-15). Deus é o amigo que
bate à nossa porta e que deseja entrar em nossa casa e cear conosco (cf.
Ap 3,20). 5.
Deus também revelou ao homem em que consiste a sua salvação Se
o mal está no abandono de Deus, a salvação está na volta a Deus, na
acolhida de Deus e na doação a Ele. O grande pecado do povo de Israel
foi a não acolhida de Jesus Cristo como Filho de Deus e salvador de todos
os homens. A salvação cristã consiste em acolher Jesus Cristo, e
acolher Jesus Cristo não é apenas ser perdoado, mas também, e
sobretudo, receber a graça de ser filho de Deus: “Veio
(o Verbo de Deus) para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas
a todos aqueles que o receberam, aos que crêem em seu nome, deu-lhes o
poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da
vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo
1,11-13). O
próprio Jesus Cristo diz a Nicodemos que pela água e o Espírito Santo
nos tornamos filhos de Deus e entramos no reino de Deus (cf. Jo 3,3-5). De
fato, a salvação não consiste apenas no perdão dos pecados, mas na
regeneração filial do próprio pecador, na transformação do seu coração
de escravo em coração de filho. O Espírito Santo nos faz filhos de Deus
e faz-nos também viver e atuar como filhos de Deus (cf. Rm 8,14ss; Gl
4,4-7). No batismo o cristão é revestido de Cristo (Gl 3,27), deixa de
ser um homem velho e torna-se um homem novo (Ef 4,22-24), uma nova
criatura (2 Cor 5,17), criado em Jesus Cristo para as boas ações (Ef
2,10) e já não é ele que vive, mas Cristo vive nele (Gl 2,20). O
Espírito Santo, que recebemos no batismo, faz-nos também irmãos de
todos os irmãos e irmãs de Jesus Cristo, pois “a paternidade
divina é a fonte da fraternidade humana: o amor dos homens
resulta do amor de Deus. A caridade define o cristianismo. Por isso, o
cristão não pode deixar de ser um homem aberto ao amor e ao serviço dos
outros homens” (Orlando Vilela. A pessoa humana no mistério do
mundo. Editora Vozes, Petrópolis1968, p.16). Auguste
Etcheverry, em sua obra “Le conflit actuel des humanismes”,
escreve: “O cristão não pode fechar-se sobre si. É homem de diálogo,
de serviço, de comunhão. O amor de Deus encontra no amor dos homens sua
necessária expressão. Amar a alguém é amar um irmão de Cristo e, por
conseguinte, Cristo em pessoa” (Em Orlando Vilela, op.cit., p. 16).
6.
O destino do homem A
questão do destino angustia sempre a humanidade. Para que viver, se tudo
acaba na morte? Por que morrer? É efetivamente o ser humano um ser
condenado à morte, como afirma Martin Heidegger? Mas
a revelação de Jesus Cristo mostra que o ser humano é destinado à vida
eterna, razão por que a morte não é o ponto final da sua vida, mas
passagem para outra vida melhor e permanente. Se o ser humano participa do
ser de Jesus Cristo e é com ele filho de Deus, então ele com Cristo
herdará também a vida eterna: “O Espírito mesmo dá testemunho
ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também
herdeiros: herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo” (Rm
8,16-17; cf.Gl 4,4-7). E
Jesus Cristo tem clara consciência de que sua missão é salvar a todos,
dar a todos a vida eterna e torná-los participantes da sua ressurreição:
“Todo aquele que o Pai me dá virá a mim; e o que vier a mim, não o
lançarei fora. Pois desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a
vontade daquele que me enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles
que me deu, mas que o ressuscite no último dia. Esta é a vontade de meu
Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê, tenha a vida eterna; e
eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,37-40). O
próprio Jesus Cristo diz a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida.
Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que
vive e crê em mim, jamais morrerá” (Jo 11,25-26). O
supremo desejo de Cristo, manifestado aos seus discípulos e a quantos
iriam crer nele, é levá-los para a casa do Pai, a fim de que todos
estejam onde ele está (cf. Jo 14,1-4). Por isso também sua confiante súplica
filial ao Pai em favor deles: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam
comigo aqueles que me deste, para que vejam a glória que concedeste,
porque me amaste antes da criação do mundo” (Jo 17,24). Assim
como Jesus Cristo morreu e ressuscitou, assim também os irmãos de
Jesus Cristo participam da sua ressurreição. São Paulo escreve aos
irmãos de Corinto: “Se
for só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo,
somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima. Mas, eis que Cristo
ressuscitou dentre os mortos; primícias dos que morreram. Com efeito, por
um homem, veio a morte, e é por um homem que vem a ressurreição dos
mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”(1Cor 15,19-22). E aos Romanos: “Todos
que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte. Fomos
sepultados com ele na sua morte pelo batismo, para que, como Cristo
ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma
vida nova. Se nos tornamos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à
sua, se-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição. ... Ora, se
morremos com Cristo, cremos que viveremos também como ele, pois sabemos
que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já nãomorre, nem a morte terá
mais domínio sobre ele” (Rm 6,3-5.8). Portanto,
viver para o cristão não é só caminhar para a morte, mas
para a vida eterna, para a máxima e permanente comunhão com Deus
e com os irmãos e irmãs. Se a infelicidade começou com a separação e
a desunião, a felicidade será a plena comunhão de Deus conosco e de nós
com Deus e de nós conosco também. Este
é também o supremo desejo de Cristo, pouco antes da sua morte: “Pai,
não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão
de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim
e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu
me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós
somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade, e o
mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim” (Jo
17,20-23). 7.
Jesus Cristo é o Caminho para o destino eterno Para
que os discípulos cheguem sãos e salvos ao seu destino eterno, Jesus
Cristo lhes diz que Ele é o “caminho, a verdade e a vida”, o
único meio para chegar ao Pai (Jo 14,6). São
Pedro, com muita coragem, confessa diante dos adversários de Cristo: “Em
nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi
dado aos homens, pelo qual devemos ser salvos” (At 4,12). Também
São Paulo considera Jesus Cristo como único mediador e salvador: “Deus,
nosso Salvador, quer que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e há um só mediador
entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem, e que se deu em resgate por
todos” (1Tm 2,3-6a). Ao
concluir esta segunda parte, vemos que a revelação divina culminada em
Jesus Cristo responde às questões mais fundamentais e inquietantes do
ser humano. Se a vida humana é uma caminhada, o seu ponto de partida e
também o seu ponto de chegada é Deus. Deus é princípio primeiro último
da vida humana. A vida humana cristã é a caminhada de um filho de Deus
à casa do Pai, uma caminhada de salvação, de libertação e de renovação,
graças à presença e à ação salvadora de Jesus Cristo. É uma
caminhada para a plenitude da vida. Nessa caminhada, o caminho seguro é
Jesus Cristo, sempre presente com seu Espírito, sempre pronto a
salvar-nos, a renovar-nos, a fortalecer-nos, a alimentar-nos, a
perdoar-nos, a habilitar-nos para enfrentar situações difíceis e para
abençoar também nossos trabalhos na família, na sociedade, na Igreja.
Jesus Cristo quer ser sempre para nós água viva, pão vivo e fruto
fecundo em nosso trabalho. Mas
nesta caminhada para a plenitude da vida, para a participação na
felicidade eterna com Deus Uno e Trino e os irmãos e irmãs, é necessária
também a nossa colaboração: devemos estar dispostos a escutar e a
acolher Jesus Cristo e a dar-nos a Ele como Ele se dá a nós. Devemos
receber e valorizar o que Deus nos oferece, acolher o próprio Deus,
confiar nele, apoiar-nos nele, responder ao seu amor de Deus com nosso
amor a ele e aos nossos irmãos e irmãs. Nesta
nossa caminhada podemos ser ajudados pela oração e pelo exemplo e a
intercessão das irmãs e irmãos
que já entraram plenamente no reino de Deus, no reino dos céus. III.
A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Fala-se
muito da dignidade da pessoa humana, dos seus direitos e deveres e também
dos crimes e da violência cometidos contra ela. Mas em que se funda a
dignidade da pessoa humana? Sempre que se fala da dignidade da pessoa
humana, aparecem logo as perguntas: Digna de que? Qual o fundamento da sua
dignidade? Para
nós, cristãos, a dignidade da pessoa humana tem duplo fundamento: um
natural e outro sobrenatural. 1.
O fundamento natural da dignidade da pessoa humana A
dignidade da pessoa humana fundamenta-se no seu próprio ser pessoal, razão
por que o fundamento da sua dignidade é o seu próprio ser que se
expressa em suas atitudes e atos. Como já vimos no ínício, o ser humano
é realmente um ser especial. Mas não é tal pelo seu tamanho, pelo seu
peso, pela sua idade, pela sua capacidade de locomover-se, de sentir, de
alegrar-se ou de entristecer-se, mas pela sua capacidade de compreender,
de amar e de fazer o que faz e do jeito que o faz. A pessoa é um ser
corporal-espiritual. Nela está a perfeição do ser material e também e
sobretudo do ser espiritual. Ela é realmente um microcosmo ou uma
miniatura do universo. A
sua originalidade radica na sua capacidade de compreender o mundo e suas
potencialidades, de compreender-se a si mesma e de ver as suas relações
com o mundo e vice-versa. Grande sinal desta sua compreensão do mundo e
de si mesma é a sua capacidade de falar, de gesticular e de escrever, de
fazer obras que expressam os seus conhecimentos, sonhos, sentimentos. O
conhecimento o animal não vai além do seu ambiente, ao passo que o homem
se abre ao mundo e se interessa pelo mundo. Ele tem uma abertura cósmica
(Weltoffenheit). Também
sua capacidade de amar e de fazer o bem ultrapassa de muito aquela do
animal. Graças à sua inteligência, o homem é capaz de pensar-se, de
decidir-se livremente, de afirmar-se e defender-se, de responder pela
bondade ou maldade dos seus atos atos, razão por que é passível de
recompensa ou de censura e castigo. Nenhum outro ser, que circunda o ser
humano, é capaz de declarar e até defender a sua identidade, dizer quem
ele é, o quer fazer e ser. Nenhum
outro ser natural se interessa tanto como o homem pela sua origem, pelo
seu destino e pelo sentido de sua vida e de sua morte. Nenhum outro ser é
capaz de descobrir e aceitar sua ligação a um Ser superior e cultivá-la
mediante a oração, a entrega, a doação.
O
pensamento grego viu a originalidade do ser humano mas foi incapaz de
justificá-la plenamente. Descobriu-a, considerando o homem como um espírito
preexistente ao corpo, mas que foi ligado ao mesmo, a fim de purificar-se
de uma culpa original. O homem tem saudade da sua pureza e da sua
felicidade original, razão por que o morrer deveria deixar de ser um suplício
e ser uma libertação benéfica. Aristóteles
viu muito bem que a inteligência humana ultrapassa a matéria, mas foi
incapaz de justificar a sua imaterialidade e imortalidade, razão por que
na Idade Média foi chamado de materialista. Viu, porém, que a felicidade
do ser humano está na contemplação da verdade, assim como Platão
colocou-a na contemplação da Beleza eterna. A filosofia grega desconhece
a noção de criação e também a noção de pessoa. A noção de pessoa,
como expressão da grandeza e da dignidade do ser humano, provém do
Cristianismo. 2.
O fundamento sobrenatural da dignidade da pessoa humana O ser humano cristão, homem ou mulher, tem duas maneiras de ver a sua
originalidade e dignidade: ele pode ver o homem a partir do mundo natural,
mas também a partir do que o próprio Deus disse a respeito da sua
criatura humana. Por isso, a imagem que o cristão tem do homem é muito
mais rica e mais bonita que aquela que desconhece
a revelação divina. Mas a revelação de Deus a respeito do ser humano não quer anular e
nem empalidecer a idéia que ele pode ter de si mesmo. Ao contrário, quer
aperfeiçoá-la e enriquecê-la muito mais. Graças à revelação de
Deus, o homem, além de ser um ser especial entre os seres do mundo, pode
ser visto como um reflexo especial e singular de Deus, como sua imagem e
semelhança e sobretudo como seu filho. Para
o cristão, o ser humano não é apenas um ser especial vivo e sensitivo
que pensa, ama e trabalha, mas é também imagem e semelhança especial de
Deus e, mais ainda, é seu filho e irmão de Jesus Cristo, seu Irmão
maior (cf. Rm 8,29). A
maior afirmação a respeito do homem no Antigo Testamento está já no início
da Bíblia: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... Deus
criou o homem à sua imagem: ele criou-o à imagem de Deus, e criou-os
homem e mulher” (Gn 1,26.27). Também as outras criaturas são
sinais do Deus criador, mas o homem é sua imagem e semelhança graças à
sua capacidade de pensar, de amar e de fazer. Sem dúvida, no homem e na
mulher Deus encontrou especial complacência: “Deus contemplou toda a
sua obra, e vi que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O ser humano
suscita e alimenta a exclamação poética do homem, encantado com a
beleza do mundo, mas sobretudo com a do homem. Assim canta o salmista: “Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua
e as estrelas que lá fixastes: Que é o filho do homem, para que vos
ocupeis com ele? Entretando, vós o fizestes pouco inferior aos anjos, de
glória e de honra o coroastes. De glória e de honra o coroastes. Destes
a ele o poder sobre as obras de vossas mãos. Vós lhe submetestes toda a
criação; rebanhos e gados, e até os animais bravios, pássaros do céu
e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano. Ó Senhor, nosso
Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra”
(Sl 8,4-10). Mas
a afirmação mais rica e mais bonita do Novo Testamento a respeito do
homem é que ele é também filho(a) de Deus. Aliás, o próprio Jesus
Cristo coloca a filiação divina como porta de entrada para o reino de
Deus: “Em verdade, em verdade te digo (a Nicodemos), quem não
nascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus”
(Jo 3,5). São Paulo diz que Deus nos predestinou para sermos adotados
como filhos seus através de Jesus Cristo: “Predestinou-nos no seu
amor, para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo a
determinação da sua vontade, para fazer resplandecer a sua maravilhosa
graça que nos foi concedida por ele no Bem Amado” (Ef. 1,5-6). E
aos cristãos da Galácia ele escreve: “Quando veio a plenitude dos
tempos, Deus enviou seu Filho que nasceu de uma mulher, e que nasceu
submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que
recebêssemos sua adoção. A prova de que sois filhos, é que Deus enviou
aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: “Aba!
Pai”. Portanto, já não és escravo, mas filho, e, se és filho, então
também herdeiro por Deus” (Gl 4,4-7). Deus
nos predestinou a sermos semelhantes ao seu grande Filho Jesus Cristo.
Através de São Paulo, ele nos diz: “Sabemos que todas as coisas
concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os
eleitos, segundo os seus desígnios. Os que ele conheceu de antemão, também
os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que
ele seja o primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rm
8,28-29). Assim
como o Espírito Santo fez com que o Filho eterno do Pai se tornasse filho
de mulher, um verdadeiro homem, assim também ele faz com que nós,
homens, sejamos filhos de Deus: “Não recebestes o espírito da
escravidão, para outra vez cair no temor, mas recebestes o espírito de
adoção pelo qual clamamos: Aba, Pai! O Espírito mesmo dá
testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos,
também herdeiros: herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo, isto, porém,
se padecermos com ele, para que também com ele sejamos glorificados”
(Rm 8,15-17) Com
muito entusiasmo e unção escreve São João sobre nossa filiação
divina: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos
chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso o mundo não nos
conhece, porque não o conheceu. Caríssimos, desde agora somos filhos de
Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que
quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos
como ele é” (1 Jo 3,1-2). Nós nos tornamos filhos de Deus, quando cremos em Cristo, o
acolhemos e nos damos a ele: “Veio (o Verbo) para o que era
seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam,
aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de
Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da
vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1,11-13). 3.
A dignidade da pessoa humana Para
expressar, oral e literalmente, a grandeza e a dignidade do ser humano,
imagem e semelhança de Deus, filho adotivo de Deus e irmão de Jesus
Cristo, os cristãos usaram a palavra “pessoa” cuja primeira significação
era ‘máscara’. Os atores principais usavam-na no teatro para fazer-se
escutar melhor pelo povo. Os atores mascarados eram os atores principais,
os protagonistas, os personagens principais, os mais dignos de serem
escutados e aplaudidos. Se o mundo pode ser visto como um grande teatro,
os seus personagens, os seus atores principais são os seres humanos, as
pessoas humanas. Pouco
a pouco, os teólogos cristãos deram o nome de pessoa ao ser humano.
Assim, Boécio diz que a palavra pessoa se diz propriamente de um indivíduo
que é de natureza racional (Persona proprie dicitur naturae
rationalis individua substantia). Ora, o ser individual e dotado de
inteligência racional é o ser humano. Deus também é pessoa, mas é um
ser puramente intelectual e como tal não raciocina mas simplesmente
entende. Tomás
de Aquino diz que a pessoa é o
“subsistente distinto numa natureza intelectual” (distinctum
subsistens in natura intellectuali” (De Potentia, q. IV, a.
4). Para Tomás “a pessoa significa o que há de mais perfeito em
toda a natureza” (Persona significat id quod est perfectissimum
in tota natura” (ST I, q. 29. a 4) (cf. Orlando Vilela. A pessoa
humana no mistério do mundo. Petrópolis, Ed. Vozes1968, p.18). Portanto,
a pessoa humana é uma substância individual de natureza racional. É uma
substância individual, isto é, incomunicável e distinta dos demais
seres. Ela é pessoa desde o momento da concepção até a sua morte. Começa
a existir como pessoa, desenvolve-se como pessoa, age como pessoa e morre
como pessoa. Como
o ser mais perfeito que existe em toda a natureza, ela é digna de admiração,
de reconhecimento e de respeito, não podendo nunca ser considerada e
tratada como objeto ou como meio para se alcançar um objetivo. É digna
de ser amada mais que todos os outros seres naturais, porque ela é mais e
vale muito mais que eles. Pode até receber o amor de Deus e pode também
dar e comunicar amor, como fez Jesus Cristo, como fez Maria e como fizeram
e fazem os santos. A
grandeza da pessoa humana e, portanto, a sua dignidade, reside em ser ela
um indivíduo dotado de
inteligência e de vontade livre. João XXIII escreve em Pacem in
Terris: “Em uma convivência humana bem constituída e eficiente,
é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa, isto
é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão,
possui em si mesmo direitos e deveres, que emanam diretamente e
simultaneamente de sua própria natureza. Trata-se, por
conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis, e inalienáveis”
(Apud Orlando Vilela, op.cit. p.206).
No
ser pessoa, no ser ela o ser mais digno de admiração e de respeito,
fundam-se também seus direitos e deveres, pois se ela tem direitos tem
também o dever de cultivá-los e de defendê-los, quando atacados. Ela
responde pelos seus atos ou pelas suas omissões. João XXIII escreve em Pacem
in Terris: “Aos direitos naturais da pessoa humana vinculam-se também
os respectivos deveres. Assim, por exemplo, o direito à existência
liga-se ao dever de conservar-se em vida; o direito a um condigno teor de
vida, à uma obrigação de viver condignamente; o direito de investigar
livremente a verdade, ao dever de buscar um conhecimento da verdade cada
vez mais vasto e profundo”
(Apud Orlando Vilela, op. cit. 219) 4.
Os direitos fundamentais da pessoa humana Esta
é uma questão muito importante e muito controvertida. Para quem admite
uma visão positivista da pessoa humana, ela não tem nenhum direito
pessoal natural. Todos os seus direitos lhe são outorgados pela lei
civil. A mesma coisa vale dos deveres. Direitos e deveres são
estabelecidos pela vontade da maioria e pela vontade da maioria também
podem ser modificados ou até anulados. Vejamos alguns direitos da pessoa
humana fundados no seu próprio ser de pessoa. 4.1
O direito à existência ou direito à vida é o primeiro e o mais
fundamental dos direitos da pessoa humana Reconhece
isto também a Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 3: “Todo
indivíduo tem direito à vida”. Ao
direito à vida corresponde o dever ou a obrigação moral de o homem não
se matar, nem matar a outrem. O direito à existência liga-se ao dever de
conservar-se em vida. A Constituição Gaudium et Spes do Vaticano
II fala dos direitos da pessoa humana e da obrigação de defendê-la de
todos os abusos possíveis: “Cresce
ao mesmo tempo a consciência da dignidade exímia da pessoa humana,
superior a todas as coisas. Seus direitos e deveres são universais e
invioláveis. É preciso, portanto, que se tornem acessíveis ao homem
todas aquelas coisas que lhe são necessárias para levar uma vida
verdadeiramente humana. Tais são: alimento, roupa, habitação, direito
de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito
à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente
informação, direito de agir segundo a norma reta de sua consciência,
direito à proteção da vida particular e à justa liberdade, também em
matéria religiosa. ....Portanto, a ordem social e o seu progresso devem
ordenar-se incessantemente ao bem das pessoas, pois a organização das
coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas e não ao contrário. Esta
ordem deve desenvolver-se sem cessar, ter por base a verdade, construir-se
sobre a justiça, ser animada pelo amor e encontrar na liberdade um equilíbrio
sempre mais humano” (GS
26). O
Vaticano II denuncia também os crimes e as ofensas cometidos contra a
pessoa humana: “Tudo
o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie de homicídios,
o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio voluntário;
tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, as
torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação psicológica;
tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições infra-humanas de
vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações, a escravidão, a
prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também as condições
degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros instrumentos de
lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e responsável: todas
estas práticas e outras semelhantes são efetivamente dignas de censura.
Enquanto elas inficionam a civilização humana, desonram mais os que se
comportam desta maneira , do que aqueles que padecem tais injúrias. E
contradizem sobretudo a honra do Criador” (GS27). 4.2
O direito à liberdade pessoal A Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que “todo
indivíduo tem direito à liberdade” (art.3). Isto
significa que todo homem tem direito à liberdade pessoal ou direito de
dirigir sua própria vida como dono de si mesmo e de seus atos, responsável
por estes perante Deus e perante a lei da sociedade. Todo ser humano tem
direito à liberdade na pesquisa da verdade e, dentro dos limites da ordem
moral e do bem comum, à liberdade de manifestação e difusão do
pensamento, bem como no cultivo da arte (cf. Orlando Vilela, op.
cit.224-225). Sobre
a liberdade, diz Gaudium et Spes: “O homem não pode voltar-se para o
bem a não ser livremente. Os nossos contemporâneos exaltam e defendem
com ardor esta liberdade. E de fato com razão. Contudo, eles a fomentam
muitas vezes de maneira viciada, como uma licença de fazer tudo o que
agrada, mesmo o mal. A verdadeira liberdade, porém, é um sinal eminente
da imagem de Deus no homem, pois Deus quis “deixar ao homem o poder de
decidir”, para que assim procure espontaneamente o seu Criador, a Ele
adira livremente e chegue à perfeição plena e feliz. Portanto, a
dignidade do homem exige que possa agir de acordo com uma opção
consciente e livre, isto é, movido e levado por convicção pessoal e não
por força de um impulso interno cego ou debaixo de mera coação externa.
O homem consegue esta dignidade quando, liberado de todo o cativeiro das
paixões, caminha para o seu fim pela escolha livre do bem e procura
eficazmente os meios aptos com diligente aplicação. A liberdade do
homem, vulnerada pelo pecado, só com o auxílio da graça divina pode
tornar plenamente ativa esta ordenação a Deus. Cada um, porém, perante
o tribunal de Deus, prestará contas da própria vida, segundo o bem e o
mal que tiver feito” (GS 17). 4.3
O direito de prestar culto a Deus Pacem
in Terris
de João XXIII diz que “pertence igualmente aos direitos da pessoa a
liberdade de prestar culto a Deus, de acordo com os retos ditames da própria
consciência, e de professar a religião, privada e publicamente”. A
Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que “toda pessoa
tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião;
este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, bem como
a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática,
pelo culto, pela observância dos ritos, isolada ou coletivamente, em público
ou em poarticular” (art.18). Mas
em relação a Deus e à verdade, a pessoa humana não tem o direito de
escolher arbitrariamente qualquer caminho. Ela deve, ao contrário,
escolher o verdadeiro caminho, na medida em que estiver em seu poder
conhecê-lo. Mas em relação ao Estado, à comunidade temporal e ao poder
temporal, ela é livre de escolher o seu caminho religioso e correr os
seus riscos e perigos... O Estado não pode impor a ninguém esta ou
aquela religião, esta ou aquela concepção ou filosofia de vida. O
Estado não pode, em nenhuma hipótese, arvorar-se em dono ou senhor de
consciências (cf. Orlando Vilela, op.cit. 226). 4.4
O direito de escolher o estado de vida Pacem
in Terris
afirma: “É
direito da pessoa escolher o estado de vida, de acordo com as suas preferências;
e, portanto, de constituir família, na base da paridade de direitos e
deveres entre homem e mulher: ou, então, de seguir a vocação ao sacerdócio
ou à vida religiosa. A família, baseada no matrimônio livremente contraído,
unitário e indissolúvel, há de ser considerada como o núcleo
fundamental e natural da sociedade humana. Merece, pois, especiais
medidas, tanto de natureza econômica e social, como cultural e moral, que
contribuam para consolidá-la e ampará-la no desempenho de sua função.
Mas é aos pais que compete e prioridade de direito em questão de
sustento e educação dos próprios filhos”(apud: Orlando Vilela, op.cit. 226-27). Portanto,
ninguém, homem ou mulher, deve ser obrigado a casar-se ou a não se
casar, bem como não deve ser obrigado a casar-se com esta ou aquela
pessoa. É
de se lamentar que os direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda
garantidos por toda a parte, por exemplo, quando “se nega à mulher a
faculdade de escolher livremente o seu esposo, de abraçar seu estado de
vida ou o acesso à mesma cultura e educação que se admitem para o
homem” (GS art. 29). Também
a dignidade da comunidade conjugal e familiar é gravemente ferida e
obscurecida pela poligamia, pela peste do divórcio, pelo chamado amor
livre. Também o amor conjugal é freqüentemente profanado pelo egoísmo,
pelo hedonismo e por práticas ilícitas contra a geração (cf. GS
art.47). 4.5.
O direito à integridade física Todo
homem tem direito à integridade corporal, à integridade física. Por
isso, ninguém será submetido à tortura, nem a castigos ou tratamentos
cruéis, desumanos ou degradantes. Ninguém será mantido em escravidão
ou em servidão: a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos
em todas as suas formas (Direitos Universais do Homem art. 4 e 5). Por
isso, “tudo o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie
de homicídios, o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio
voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as
mutilações, as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação
psicológica; tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições
infra-humanas de vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações,
a escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também
as condições degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros
instrumentos de lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e responsável:
todas estas práticas e outras semelhantes são efetivamente dignas de
censura. Enquanto elas inficionam (infeccionam) a civilização
humana, desonram mais os que se comportam desta maneira, do que aqueles
que padecemtais injúrias. E contradizem sobremaneira a honra do
Criador” (GS art.27). 4.6
O direito de migração Segundo
a Declaração Universal dos Direitos Humanos (art.13), “toda
pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das
fronteiras de cada Estado. Toda pessoa tem direito de deixar
qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar”. Este
direito inclui o direito de asilo. Segundo a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, “toda pessoa, vítima de perseguição, tem o
direito de procurar e de gozar asilo em outros países. Este direito não
pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por
crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios
das Nações Unidas” (art.14) . Conclusão
Ao
concluir esta exposição, podemos ver que a pessoa humana é realmente um
ser original. Podemos ver a sua originalidade a partir dos nossos sentidos
e da nossa razão, mas também a partir do que Deus se dignou dizer a
respeito desta sua especial criatura. Pela
razão podemos ver que ela é um ser especial entre os demais seres. Foi
chamada ‘animal racional’, isto é, um ser vivo sensitivo capaz de
pensar e de raciocinar e, conseqüentemente, de ter domínio dos seus atos
e de responder por eles. É pessoa. A
partir da revelação divina, podemos ver que o homem é o ser mais
querido de Deus e que está chamado a estar e a viver em comunhão plena e
eterna com ele, pois, além de ser sua imagem e semelhança, é também
filho de Deus e por isso também herdeiro de Deus e co-herdeiro de Jesus
Cristo. Longe
de ser um ser indiferente à pessoa ou um inimigo ou um obstáculo, Deus
quis revelar-se ao homem não só como seu criador mas também como seu
salvador, renovador e guia. A revelação divina culminada em Jesus Cristo
mostra Deus como o máximo amigo do ser humano. Jesus Cristo é a maior
prova do amor salvador de Deus Pai: “De tal modo Deus amou o mundo,
que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça,
mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para
condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16-17). O
próprio Jesus Cristo disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele
que dá a sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o
que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que
faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos ensinei tudo quanto ouvi
de meu Pai. Não fostes vós quem me escolhestes, mas eu vos escolhi a vós
e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça”
(Jo 15,13-16). “Eu
vim para que as ovelhas tenham a vida, e para que a tenham em abundância.
Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas... Dou a
minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo
10.10.11.15b). Jesus
Cristo quis identificar-se com cada pessoa humana de sorte que tudo o que
fizermos para o seu bem ou para o seu mal o estamos fazendo ao próprio
Cristo. Acolher bem uma pessoa é acolher Jesus Cristo: “Quem vos
recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe Aquele que me enviou”
(Mt 10,40). “E o que receber em meu nome a um menino como este, é a
mim que recebe” (Mt 18,5). “Todo o que recebe a um destes
meninos em meu nome, a mim é que recebe; e todo o que recebe a mim, não
me recebe a mim, mas aquele que me enviou” (Mc 9,37). O
que fizermos a um pobre ou a um necessitado, o estamos fazendo ao próprio
Jesus Cristo: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes
isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o
fizestes” (Mt.25,40). “Todas as vezes que deixastes de
fazeristo a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer”
(Mt 25,45). Faz-se
de tudo hoje para privar a pessoa da sua dignidade humana e cristã e para
reduzi-la a um simples ser material ou animal. Daí também todos os
abusos que são cometidos contra as crianças, contra os jovens, contra os
adultos, contra os idosos e doentes. Por isso, a grande necessidade de
conhecer mais e melhor a a grandeza e a dignidade da pessoa humana,
valendo-nos sobretudo da palavra e do exemplo de Jesus Cristo, nosso Irmão
maior, e de defendê-la de
toda profanação. Por outra parte, a necessidade de mostrar Jesus Cristo
como o maior amigo da pessoa. O maior desejo de Jesus Cristo é que todas
as pessoas sejam felizes, apresentando-se a eles como caminho, verdade e
vida. JBQuaini- SM 23.03.06
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