Um Gaúcho na Porteira do Céu

 

 

UM GAÚCHO NA PORTEIRA DO CÉU

Mons. Elcy

No atropelo da existência, os anos chegam, batem com a mão na aba do chapéu e se mandam para um caminho que um dia sabemos, vai acabar. É um beco sem saída. É um fim de jornada onde se deve apear do cavalo da existência e caminhar sozinho até a Casa do Pai que ali reside, no lugar chamado eternidade. Não importa se a cavalgada foi fácil ou conturbada, a gente tem que chegar, desmontar e se apresentar ao capataz da estância definitiva e tomar seu lugar na organização criada pelo Patrão divino.

Se ao chegar na estância celeste, lhe for oferecido um chimarrão com a melhor erva que você já experimentou, então considere-se bem recebido e conclua que está tudo nos seus devidos conformes.

Se lhe mandarem esperar um pouco e o capataz for conferenciar com o Patrão, sua existência tem alguma sobra para acertar, alguma encrenca com sua patroa, alguma dívida negada, algum empréstimo não devolvido; enfim, qualquer coisa que os registros da sua consciência lhe acusem e lhe pesem.

Mas, se você, pelas veredas de seus dias, parou muitas vezes para levantar algum caído, se numa parada qualquer cozinhando seu “carreteiro”, foi capaz de partilhá-lo com algum faminto, se do seu velho ponche tirou um pedaço para agasalhar algum friorento, se da “canha” (que levava numa guampa presa com tentos nos arreios), desinfetou ferimentos de um desastrado, pode ficar tranquilo, tudo lhe será devolvido. O lucro será de mais de cem por cento e você poderá adentrar, de chapéu tapeado, na casa que já é toda sua!

Mas, se você foi “mão de vaca” com os que viajaram consigo, se não socorreu os mendigos que mancavam nas beiradas dos caminhos, se não deu atenção para algum desanimado e coisas deste gênero, se previna, índio velho, porque o Patrão vai se desgostar consigo e você vai quarar pelo lado de fora, só ouvindo, de longe, as músicas da festa que acontece no grande galpão dos justos.

É bom se prevenir!