TROPA SAGRADA

TROPA SAGRADA

Mons. Elcy

O que eu menos gostava, quando guri, era ir, como gado sinuelo, à frente da tropa, impedindo a boiada de se desgarrar por alguma porteira aberta ou por algum corredor. Trabalho chato e próprio para guri. Os que repontavam o gado, os tropeiros velhos, vinham atrás, dando um berro ali, outro acolá para acelerar o passo; no mais, falavam de carreirada, contavam causo ou alguma gauchada!

Quando o meio-dia chegava, a tropa era encurralada numa mangueira formando um piquete. A gente preparava o arroz carreteiro com um charque bom para uma fome maior. E, mais uma vez, o guri levava o pior: catar gravetos, lenha seca e fazer o fogo, enquanto os tropeiros chimarreavam e contavam causos cheios de invenções de valentia ou de conquistas. Nem lhes conto quem lavava a panela, os pratos de alumínio e os talheres: o guri!

Quando algum animal desgarrava, atravessando uma cerca caída, a culpa era sempre do piá e alguém lá de traz gritava: “Presta atenção, nulidade; reponte o bixo! ” A espora, no garrão, tinia contra as virilhas do cavalo, enquanto os tropeiros riam da postura do menino, mais escravo que companheiro de jornada.

Assim me criei até a idade de 12 anos, quando abandonei a profissão. Resolvi estudar para conduzir outra tropa com características semelhantes. Semelhantes, mas não iguais, pois a nova tropa era feita de gente. A estrada era a vida. As cercas caídas eram os vícios. As estradas secundárias eram o abandono da fé.

Hoje não grito mais: “Eia boi, eia boiada”. Convido, com jeito e com carinho, a tropa humana, para a invernada da Igreja. Lá a pastagem da fé alimenta a alma, a água da misericórdia dessedenta a omissão, a caridade da partilha garante a vida plena. Hoje sou tropeiro do “Homem do Pala Branco” e me sinto muito bem!